Parecer haver quase um consenso mundial no que diz respeito à ideia de que as mulheres, em tese, são muito competitivas e pouquíssimo solidárias entre elas. Na verdade, todos sabemos bem que insistir na ideia de que as mulheres são desunidas por natureza é um recurso antigo e muito favorável ao machismo, que sente-se sempre fortalecido pela desunião feminina.

 

Os últimos episódios dos debates iniciados no Globo de Ouro e prosseguidos pela infeliz carta da Catherine Deneuve e outras mulheres, ajudou a intensificar essa ideia de cisão ou da quase inimizade feminina. A simples divergência sobre um determinado assunto é tida como razão para vender a noção de que mulheres são inimigas e não meras debatedoras.

 

Mas acredito que a realidade do tema seja exatamente o oposto. Mulheres cuidam de mulheres, muito mais do que homens cuidam de homens. A noção de sororidade (a empatia que gera a união e o fortalecimento feminino) me parece ser a própria natureza dessas relações.

 

Entre alguns breves momentos de esquecimento, lembro-me bem da minha despedida de solteira. Conforme eu ia bebendo mais, rindo mais e enrolando mais as palavras, mais frequentemente eu era abordada por alguma amiga, igualmente bêbada, que dizia sorrindo “agora toma um copo d’água, Ru” ou “agora vem comer alguma coisa, Ru”. Todas bêbadas, mas todas alertas, umas pelas outras.

 

Me pergunto quão frequente isso é no universo masculino. Quantas vezes um homem chega para o outro- num cenário no qual tudo vai bem, ninguém está caindo no chão, nem passando mal- ainda- e insiste para que tome uma aguinha, coma uma coisa com açúcar, para não passar mal. Pelo que vejo, acontece exatamente o oposto.

 

E é assim em muitas esferas. Mesmo quando não há proximidade ou amizade, o instinto natural de uma mulher é o de suportar a outra e não o contrário. Não há exemplo melhor do que o banheiro público feminino, na qual todas já protagonizamos a passagem de papel higiênico para uma desconhecida, um pedido de absorvente, o ato de segurar uma porta cujo trinco está quebrado, o consolo a uma mulher qualquer que chora.

 

É preciso que a gente não caia na cilada da competição, da desunião, do salve-se quem puder. É preciso entender que a vida não é nada além de um imenso banheiro público feminino, no qual nossa vida será muito melhor se estendermos a mão umas às outras, como nos é natural, em vez de esconder o rolo de papel higiênico. Nenhuma de nós faz isso. Por que alguma de nós faria isso?