Eu me mudei ontem. Não sei bem se terei saúde para escrever este texto até o fim, mas farei o meu melhor. Mudar de casa costuma ser uma coisa boa a médio prazo, mas o processo que nos leva até a mudança é complexo e um tanto quanto doloroso (fisicamente inclusive). Não sou daquelas pessoas que já se mudou 30 vezes ao longo da vida, mas acredito ter aprendido muito nessas últimas semanas e gostaria de dividir estas sábias lições com os demais através deste pequeno Manual da Boa Mudança.

 

  1. Acerca da casa nova

 

Quando é só uma ideia: é bom que tenha 3 quartos, que um deles seja suíte, que tenha garagem, elevador e varanda.

 

Quando começa a pensar de forma mais realista: pode ter 2 ou três quartos, se for primeiro andar não precisa de elevador. Tem que ter garagem e varanda.

 

Quando você começa a pesquisar: 2 quartos tá jóia. Se não tiver elevador é bom que eu me exercito. Garagem seria bom. Varanda é um diferencial.

 

Quando você descobre os preços: talvez um quarto baste se a sala for grande. Elevador e garagem são luxos desnecessários. Varanda não rola, mas pode ter umas boas janelas.

 

Quando você começa a visitar os apartamentos: se couber minha cama já tá bom. Subir 6 andares de escada é tranquilo. Garagem nem pensar porque eu não vou ter dinheiro pra ter carro. Janela é uma invenção burguesa.

 

  1. Acerca dos planos românticos de mudança a dois:

 

– Amor, vai ficar linda a casa né?

– Vai sim, querida.

– Especialmente aquela parede da sala que a gente combinou de pintar de roxo.

– Oi? Que parede?

– A da mesa de jantar, amor.

– Eu nunca disse que a gente podia pintar uma parede de roxo.

– Disse sim! Foi só por isso que eu aceitei ficar com aqueles quadros horrorosas da sua tia!

– Os quadros da minha tia são lindos! Ela é uma artista plástica muito reconhecida pelas telas retratando javalis e porcos selvagens.

– Eu não vou falar nada. E além disso, a sua tia tem cabelo roxo. Não reclame da minha parede.

– Ok. Tá bom. O frigobar fica ali então?

– AHN? FRIGOBAR? NA SALA?

 

 

  1. Acerca da arrumação das caixas

 

Expectativa: Vou arrumar as caixas da mudança com critérios bem determinados para depois ser fácil de arrumar na casa nova.

Realidade: Nessa caixa aqui eu vou colocar livros de poesia e arte. Talvez uns de receitas também. E direito civil. Tá ficando pesada demais, chega de livro. Mas tem muito espaço ainda.  Já sei, vou colocar uma manta. E uns panos de prato também. Casacos leves. Ainda dá pra colocar um pouco de peso. Vou colocar a torradeira. E esse porta retrato. Nesse cantinho cabem uns descartáveis. E peneiras. Peneiras dão certinho aqui. Agora um soutien. Os passaportes. Três meias. Caneta marca texto. Atum enlatado. Funil.

 

  1. Algumas dicas sobre a véspera da mudança:

 

1) Lembre-se que depois de encaixotar quase tudo você vai precisar beber álcool
2) Lembre-se que quando você for procurar o álcool ele já estará encaixotado e inacessível
3) Lembre-se que você pode sair e comprar uma garrafa de vinho, sacrificando alguns minutos de arrumação
4) Lembre-se que quando você chegar com a garrafa você descobrirá que o saca rolhas também está encaixotado
5) Lembre-se que você pode bater na porta do vizinho e pedir um saca rolhas emprestado
6) Lembre-se que pode ser mais de 10 da noite e ele pode estar de pijama e abrir a porta meio puto da vida
7) Lembre-se que o vinho é mais importante do que manter a amizade com alguém que já não será seu vizinho amanhã, siga firme no saca rolhas
8) Lembre-se que as taças possivelmente também já estarão encaixotadas
9) Lembre-se que tomar bebida alcoólica no gargalo é algo absolutamente libertador
10) Lembre-se que a garrafa tem 750ml e, ainda assim, você precisa acordar no dia seguinte para fazer a mudança

 

  1. Sobre o dia da mudança:

 

Se você for muito rico e tiver contratado um empresa boa de mudanças, não é preciso ficar desesperado. Basta ficar tenso.

 

Se você for uma pessoa normal e tiver contratado uma empresa “ok” de mudanças, já pode começar a se desesperar.

 

Se você for como eu e tiver contrato “um empresinha aí que está começando e cobra MEGA barato”, nem perca seu tempo se desesperando, apenas calcule os prejuízos para saber se não vale a pena já ir vendendo alguns móveis que vão cair do caminhão no trajeto.

 

Se você não tiver contratado empresa nenhuma e for pedir ajuda pra uns amigos, eu não sei o que dizer, apenas sentir.

 

  1. Sobre a mudança em si

 

“Deixa eu já ir levando essa caixa que tá leve (levanta a caixa) eita não tá assim tão leve (sobra uma mão livre) mas mesmo assim posso ir levando essa sacola aqui que só tem isopor (começa a subir uma escada) ai gente a calça tá caindo um pouco (joga a cintura no corrimão e dá umas abaixadinhas pra tentar subir a calça, não dá certo) dane-se a calça, a caixa tá escorregando aqui (tenta correr um pouco, tropeça na sacola) pronto, aqui, cheguei, jóia (deixa a caixa, vê um dos caras da empresa de mudança entrando com 2 caixas, uma mala e 5 sacolas) opa, maravilha amigo, essa caixa é na cozinha, a mala é o quarto, as sacolas s… (o homem já largou tudo na cozinha) tudo bem, depois eu ajeito (a casa já está caótica, nada mais pode ser ajeitado) tá tranquilo, em 3 ou 4 horinhas a gente mata isso (serão cerca de 3 ou 4 anos)”

 

  1. O fim da mudança

 

Você olhará para um lado, um milhão de caixas, olhará para o outro lado, meio milhão de malas, você terá dores nas costas, hematomas nos braços, cortes nos dedos, sua roupa estará suja, sua cara exausta. Você pode escolher entre resmungar sobre tudo isso ou sentar em cima de uma caixa, respirar fundo, sorrir e agradecer à vida por um novo caminho tão bom que se inicia. O resto a gente arruma depois.