Quarta feira, 10 de fevereiro, chegamos ao estádio do Pacaembu. Campeonato bom, joguinho ruim. Estávamos no tobogã vendo o Michel Bastos acertar o pênalti na trave e o Rogério dar um fim menos lamentável à noite, aos 42 do segundo tempo. Saímos do estádio rindo, lembrando de uma noite em que implicamos com um garçom palmeirense em um bar, havia uns 12 anos. Pegamos o carro e a Amanda, minha melhor amiga desde menina e minha melhor companheira de estádio disse “será que a arquibancada um dia vai deixar de ser tão opressora para a gente?”.

Antes de sair para o jogo, peguei a camisa do meu pai, porque vai até o meio da minha coxa e “sabe como é né? Estádio, quase só homem, melhor não vacilar.”. Chegamos lá e tem homem, homem, homem. Olhares de homens. Gritos de homens. Nós frequentamos estádios há muitos anos, desde meninas. E sim, nos aborrecemos há muitos anos. E voltamos. Insistimos. É uma questão de resistência, sabe? O time também é nosso e aquela arquibancada também tem que ser. Um dia será.

Mas ainda não é. It’s a man’s arquibancada. A entrada é livre, mas o espaço não é de todos.

Alguns dias depois fui para o aeroporto de Guarulhos. Cheguei cedo, lembrei que podia ir à sala vip. Faz algum sentido essa coisa de trabalhar muito e gastar algum dinheiro com o próprio conforto. Cheguei à sala de poltronas confortáveis, espumante no gelo, comidinhas elegantes.

E sabe quem estava lá? Homens. Um monte de homem de camisa social. Muitos estrangeiros, quase todos tratando de mil urgências em seus smartphones, Ipads, macbooks. Homens, homens, homens. Das pouquíssimas mulheres, quase todas acompanhavam seus maridos.

Sentei. Abri meus livros. Dei uma entrevista por telefone. Liguei para a minha avó. Levantei para pegar uma bebida. E sim, eu era olhada como o mesmo pedaço de carne que sou nas arquibancadas do estádio. Não havia a menor diferença entre o olhar do estádio e o olhar da sala vip. O machismo que autoriza o livre e desinibido trânsito dos olhos masculinos pelo nosso corpo grita igualmente alto em ambos os ambientes.

Mais uma vez, it’s a man’s sala vip.

O morador da periferia que deixou de pagar pensão alimentícia para comprar ingresso para o jogo é incrivelmente parecido com o executivo alemão que pagou uma acompanhante para jantar com ele no Paris 6. E o rapaz cansado que trabalha na catraca do estádio também não é diferente do engenheiro cansado que embarca para Boston a trabalho. Com mais ou menos grana, mais ou menos diplomas, mais ou menos oportunidades, quase todos eles têm em comum a certeza de que nos olhar daquela forma é um direito deles e a tranquilidade de não se importarem nem um pouco com o tamanho do desconforto que isso possa nos causar todo santo dia.

~Ah, minha querida. Esses ambientes não são para você. É você que se expõe a isso. Fique em casa, assista um desses canais femininos que mostram transformações de mulheres que alcançam a felicidade plena com um novo corte de cabelo. Não se meta a discutir futebol. Estádio é lugar de palavrão, isso não é para você. E sabe? Se você viajasse acompanhada teria menos aborrecimentos. Mas foi você que escolheu essa vida de trabalhar, ganhar dinheiro e frequentar os mesmos ambientes dos executivões. Aguente o tranco, minha cara. Daqui a pouco vão dizer que os homens não têm nem sequer o direito de admirar umas silhuetas com ar faminto, de apetite aberto.~

É assim. It’s, de fato, a man’s world no qual nós precisamos buscar espaço a cada amanhecer.

Tá ficando chato esse mundo tão politicamente correto? Que bom, meu amigo. Ficará ainda mais. Até que nós, mulheres, possamos nos sentir minimamente confortáveis no mundo, até que o mundo deixe de ser esse podre man’s world vocês ainda serão muito aborrecidos com as nossas ~ladainhas~. Desculpem qualquer coisa. Porque nós não vamos mais desculpar comportamentos que nos reprimem e nos constrangem. Estamos cansadas de pedir licença para entrar em ambientes que também são nossos, mas nos quais vocês fazem o favor de nos receber como uma visita que veio para o jantar. Como prato principal, é claro.

(por um 8 de março com menos bombom e mais respeito)