Sim, adoraria escrever um texto afetuoso e otimista sobre o dia das mães, falando sobre esse amor desmedido e sobre a maravilha que é tê-las por perto. Mas hoje não consigo. Nesse Brasil, palco de tantos espetáculos de horror, não dou conta de fingir que está tudo bem e que esse deveria ser um domingo alegre de celebração.

 

A questão é: quem são as mães do Brasil? As mães do Brasil não são exatamente como a minha. Nem são as mães das propagandas dos shopping centers, nem as dos comerciais de perfumaria, nem nenhuma daquelas que nos mostram, numa tentativa de nos convencer que as mães do Brasil são aquelas, belas, serenas e sorridentes. Não são.

 

A maioria esmagadora das mães brasileiras é de mães angustiadas. Mães que vivem com medo. Medo do dinheiro não durar até o fim do mês, medo de não receber a pensão, medo do seu filho negro não voltar vivo para casa, medo do seu filho gay apanhar enquanto volta do trabalho, medo de perder o emprego por ser uma mulher com filhos e não ter a quem recorrer.

 

Em março desse ano Marielle Franco, vereadora negra e homossexual foi executada com 3 tiros na cabeça e um no pescoço. Essa semana foi a vez de Matheusa, estudante de arte transexual que foi morta em segundo apontam as investigações, teve seu corpo incinerado. Como vivem as mães brasileiras cujos filhos são gays? Como vivem as mães brasileiras cujos filhos são negros? Tranquilas, sorridentes e com razões para comemorar? Não me parece.

 

Quase 27% das mães brasileiras encaram a criação dos filhos sozinhas, sem um apoio paterno. Reparem bem, mais de ¼ das mães do Brasil são mães solteiras. Há, no Brasil, quase 6 milhões de crianças sem pai registrado. As preocupações que assolam a vida de uma mãe que se vira sozinha com trabalho, dinheiro, saúde e educação não me parecem deixar muito espaço para essas festividades dominicais.

 

No ambiente de trabalho as mães brasileiras seguem vulneráveis. Inseguras quanto ao respeito à sua garantia de emprego ao longo da gravidez e no pós-parto. Impedidas de exercer seu direito de amamentar os filhos, seja por uma suposta inviabilidade ou por um inacreditável moralismo. Sobrecarregadas pelos inúmeros hábitos machistas que ainda imputam a tal dupla jornada de trabalho à mulher.

 

Nesse cenário de violência, insegurança, machismo e intolerância vemos uma figura como Jair Bolsonaro liderar, em alguns cenários, as intenções de voto para as eleições desse ano. O Brasil é mesmo ininteligível. Vemos os números de feminicídios e crimes de ódio cresceram, enquanto fingimos que está tudo sob controle. As mulheres correm riscos e os filhos delas também. Não me parece um cenário para muitas comemorações.

 

Que o dia das mães, assim como o dia das mulheres, não seja apenas um dia de flores, chocolates e presentinhos. Que seja um dia de reflexão e debate sobre a condição das mulheres no Brasil, como mães angustiadas, como profissionais ameaçadas, como figuras discriminadas exatamente por serem mulheres e por serem mães.