Ele é muita coisa.

Ele é muito mais coisa do que eu precisava que ele fosse.

É café. É cerveja. É placebo. É chá de erva doce.

Ele é muitas das horas de cada um dos meus dias.

Com quem eu divido as maiores angústias e os sagrados remédios pra azia.

É um ombro ossudo que poderia ser desconfortável.

Mas é o ombro que eu passei a chamar de lar.

É o braço firme que me puxa quando tento cruzar a rua sem olhar.

É a toalha úmida que eu uso quando a minha ficou pendurada no varal.

É sujeito nos meus textos que eu tento, sem sucesso, usar de modo impessoal.

Ele é tudo o que eu não sou.

É terra, pé no chão, é cada um dos silêncios que minha boca desrespeitou.

Ele é aquele que sempre volta.

Nem sempre às 18. Às vezes demora.

Mas ele é desse tipo bom, que volta, sempre volta.

Ele é desses que trabalha além do expediente.

Que trabalha muito, mas nunca o bastante para tornar-se ausente.

Ele é um domingo à noite, hora sem pressa.

Ele é a moeda que cai do lado certo quando a gente arremessa.

Ele é a cozinha bagunçada.

É tentativa e erro.

Panela com coisa queimando sem qualquer indício de desespero.

Ele é combustível.

Tipo raro.

Que me quer com asas, voando em céu claro.

Ele não vê no sucesso uma ameaça.

Vê meta conjunta, parceria, mapa que a gente abre, rota que a gente traça.

Ele é gente grande, homem imenso.

Ele é ainda assim, muito maior do que eu penso.

Ele é chato. Mil manias restritivas de direitos.

Mas que nunca é definido por qualquer tipo de conceito.

Ele é muito.

Ele é tanto.

E é forte.

E ter muito

e ter tanto,

é ter tudo da sorte.