Nesses quase 30 anos que vivi nunca vi tanto debate acerca do fato de gostar ou não gostar de um cantor como o que tenho visto atualmente com as figuras da Anitta, da Ludmilla e da Pabllo Vittar. Trata-se, evidentemente, de uma questão que vai muito além da música, adentrando camadas muito mais profundas.

 

Como disse meu amigo jornalista Junior de Paula “quando a gente não gosta de um estilo musical, de um cantor, ou de uma música, a gente não passa o dia inteiro xingando esse cantor, diminuindo o trabalho desse cantor, desse estilo ou dessa música. A gente só não ouve. E segue em frente.” Mas não é isso que vem acontecendo.

 

Anitta, Ludmilla e Pabllo Vittar representam figuras extremamente incômodas para uma sociedade conservadora: a mulher bem sucedida e livre, a mulher negra de sucesso no funk, e o garoto gay fazendo performance de drag queen. O sucesso de tais indivíduos é absolutamente intragável para aqueles que não aceitam nem mesmo o direito à existência de pessoas nesse perfil.

 

O fato é que, obviamente, não há qualquer problema em não ser fã de nenhum deles. Ninguém tem que gostar dessas pessoas e nem de suas músicas. O problema é que, sobretudo no cenário político e social no qual o Brasil se encontra, levantar a bandeira anti Anitta, anti Ludmilla e e anti Pabllo Vittar não significa levantar a bandeira do bom gosto musical, mas sim a bandeira conservadora, intolerante e de não aceitação das diferenças.

 

Vivemos num país com um executivo, um legislativo e um judiciário tomados quase em sua integridade por homens, brancos, conservadores na casa dos 50 anos. Por outro lado, as figuras mais influentes e com mais sucesso nesse mesmo país são esses cantores, representando a liberdade sexual, o direito de ser dono do próprio corpo e a ausência do medo do julgamento alheio. Há algo muito, muito esquizofrênico nas questões de representatividade no Brasil.

 

Essa questão deixou de ser, há tempos, uma questão sobre música. A necessidade de berrar aos quatro ventos que se detesta Anitta, Ludmilla e Pabllo é a necessidade de se opor a tudo aquilo o que eles representam. Como disse aquele mesmo amigo, dizer que eles não cantam bem ou que não são competentes é uma desculpa que há tempos não cola. É mais honesto admitir que não gosta de ouvir a voz de um homem gay afeminado, vestido de mulher. É mais honesto dizer que fica incomodado com uma mulher dona do próprio corpo, que rebola sua bunda fantástica perante as câmeras sem medo do que a família tradicional brasileira vai pensar acerca disso. É mais honesto dizer que não gosta que mulheres negras façam tamanho sucesso.

 

Você pode perfeitamente preferir ouvir Caetano Veloso, Mozart, Chitãozinho e Xororó, Kiss, Céline Dion, Villa-Lobos. Você pode perfeitamente dizer “eu não gosto das músicas da Anitta, da Ludmilla e da Pabblo Vittar”. E, veja só, você também pode dizer “eu não gosto da Anitta, da Ludmilla e da Pabllo Vittar porque não gosto da figura de uma mulher livre, de uma negra bem sucedida e de um gay visível”, mas tenha a coragem de assumir que isso se deve ao seu machismo, seu racismo e à sua homofobia e não a uma suposta falta de qualidade do trabalho alheio.

 

Para algumas pessoas deve ser mesmo difícil engolir que cantores de origem humilde, com perfis que não se encaixam no modelo ideal conservador, nascidos nos anos 90 tenham mais sucesso, mais aceitação e mais dinheiro do que elas mesmas. Acho que é isso que chamam de recalque. Gostar ou não de Anitta, Ludmilla e Pabllo Vittar é um direito. Ter respeito pelo trabalho dos outros é um dever. E, sim, defendê-los de ataques discriminatórios travestidos de erudição musical, no cenário atual do Brasil, acabou por ser um ato político e necessário, não apenas por causa deles, mas por causa de todas as minoria ameaçadas por esses discursos.