Nunca fui muito de embarcar nessa coisa de crise. Sempre achei que era capaz de passar pela vida de forma razoavelmente tranquila, administrando minhas angústias sem maiores dramas que acabassem por desembocar em algum tipo desnecessário colapso. Mas -surpresa- o raio da crise dos 30 chegou sem pedir licença.

 

Não me sinto deprimida, infeliz, muito menos arrependida com a minha trajetória. Muito pelo contrário. Mas essa coisa de fazer 30 anos dentro de 18 dias vem martelando minha cabeça de forma insistente há meses. Tá tudo bem comigo, tá tudo super bem, mas começou a bater uma ansiedade estranha, uma voz inconveniente que berra “você já não é mais jovem, você já não é mais tão jovem Ruth”.

 

Quando me falavam em crise dos 30, achava que isso só batia para quem sentia um vazio muito profundo em alguma esfera da vida: trabalho, relacionamento, família, dinheiro. Mas percebi que não. Que esses fatores podem, obviamente, agravar as angústias, mas que mesmo aqueles que estão bem com o próprio estado civil e com a própria carreira, também sentem a água bater na bunda.

 

O corpo começa a se comportar de forma estranha: aparecem dores nas costas, quilos que chegam sem avisar, pregas no canto dos olhos, fios brancos aleatórios, azia e má digestão. As noites de sono mudam (mesmo que você não tenha filhos). Aquela coisa de cair na cama, adormecer automaticamente e só acordar no dia seguinte começa a se tornar rara. Dificuldade para adormecer quando deita, dificuldade para adormecer depois de um xixi de madrugada, dificuldade para dormir até meio dia no fim de semana. Coisas estranhas.

 

De repente, as pessoas que fazem sucesso (os cantores, os jogadores de futebol, os blogueiros, os jovens executivos) são mais novos que você. Como assim?! Como alguém mais novo que eu já pode estar no topo?! Eles são crianças, eles nasceram nos anos 90! Pois é, meu querido, você já não é assim tão novo. O tempo passou.

 

E começa, acima de tudo, uma sensação de que seus picos de liberdade já passaram. A época de errar já passou, a época de fazer grandes bobagens já passou, a época de curtir a solteirice, de fazer mochilão, de tomar porre na terça-feira. Na verdade, não há nada que nos impeça de continuar nessa vida, mas aquela voz sussurra no nosso ouvido “escuta, você já tem 30 anos…”.

 

Para alguns, bate a sensação de “minha vida já deveria estar de outro jeito”. Para outros bate o “mas meu espírito ainda tem 18 anos”. E para todo mundo bate a sensação de que o tempo passa mais rápido do que deveria. E começamos a sentir que ficaram muitas pendências desde os 20 e que talvez não tenhamos mais tempo para concretizá-las.

 

Aparecem nas listas de pendências: minha barriga não ficou dura, eu não fui pra Machu Picchu, eu não mandei meu chefe pro inferno, eu não tive um fusca, eu não saí com aquela menina por quem eu era apaixonado na escola, não fiz trabalho voluntário no Congo, não tive uma louca experiência homossexual, não pintei meu cabelo de azul, não acampei na praia, não comi bolo de maconha. Dá pra fazer tudo isso ainda? Dá. Mas vamos fazer? Sabemos que provavelmente não. Daí o medo.

 

Sim, eu sei que está tudo bem. Sei que não estou velha, que há muita vida e muita coisa boa pela frente. Mas não me peçam para me despedir da minha juventude sem sofrer um pouco. Sim- não dá pra negar, a juventude está indo embora.  Como bem disse a Sandy, tenho sonhos adolescentes, mas a costas doem. E essa incompatibilidade de corpo e calendário com alma e cabeça não são lá muito fáceis de digerir. Vai ver que é daí que vem a azia.