É fácil encontrar alguém que goste da gente quando chegamos nas festas. Roupa limpa, cabelo ajeitado, perfuminho. Torna-se um pouco menos fácil encontrar alguém que nos ache uma maravilha no fim da festa: embriagados, descabelados, distorcidos. Mas nada é mais difícil do que encontrar alguém que goste da gente de ressaca.

 

Poucas coisas são mais íntimas do que aquele momento em que você abre os olhos, sente o gosto de guarda-chuva velho na boca, percebe que seu estômago dá voltas como um carrossel acelerado e que sua cabeça está tão pesada tanto quanto a sua consciência. Esse é um daqueles momentos da vida nos quais costuma ser melhor estar sozinho.

 

Até porque, quando a ressaca é mesmo séria, não há porta capaz de isolá-la do resto do mundo. Os barulhos que escapam de dentro do banheiro, os lamentos que saem furiosos da nossa boca, a angústia que berra nos nossos olhos “EU JURO QUE NUNCA MAIS DA MINHA VIDA VOU BEBER DESSE JEITO”.

 

Realmente não é fácil encontrar alguém que seja bem vindo nesse cenário, nem que siga gostando da gente nessas circunstâncias.  Por isso mesmo, o ideal é encontrar alguém com quem você possa compartilhar a ressaca, um caído para cada lado- da cama, do sofá ou do tapete- sofrendo de mãos dadas.

 

Encontre alguém que pergunte de manhã “você tá ruim também?”, alguém que diga “encontra aí uma cartela de engov enquanto eu faço um chá de boldo para a gente”, alguém que não julgue as suas olheiras e que grite de fora do banheiro “se precisar de alguma coisa, chama”.

 

Apaixone-se por alguém que também ache que é melhor desmarcar aquele almoço e ficar estirado no sofá assistindo filmes ou séries que não demandem nenhum tipo de raciocínio. Alguém que, depois de algumas horas, te proponha comer alguma coisa que não dê muita vontade de vomitar e que seja preferencialmente algo que só precisa ser enfiado no micro-ondas ou que venha por delivery.

 

Apaixone-se por alguém que seja parceiro não só na noite, mas que também seja parceiro no dia seguinte. Por alguém que não te julgue, que continue te achando uma beleza quando está com a cara amassada e um pijama que nunca mais sai do corpo. Alguém que te diga “não vamos fazer isso nunca mais, tá bom?” para que você responda “não mesmo”, mesmo que ambos saibam isso não é verdade.