Há alguns anos escrevi um texto chamado “A odisseia de dormir junto” porque eu percebi que este ato cotidiano realmente merecia ser analisado sob uma ótica mais honesta do que das cenas de cinema e das narrativas românticas. Dormir junto, na verdade, é um caos.

 

Pois bem. Percebi agora que o banho a dois sofre exatamente do mesmo mal. Nem vou entrar nas questões sexuais que podem ser inusitadamente exploradas nessas condições, porque a complexidade disso mereceria um livro de 300 páginas e não um texto de 3 mil toques. Limito-me à logística de um inofensivo banho a dois.

 

Tudo começa através de um destes dois pensamentos: “vamos entrar juntos rapidinho porque estamos com pressa e vai ser mais rápido” ou “vamos entrar juntos porque estamos apaixonados e vai ser lindo”. Spoiler: nenhuma das duas intenções vai se concretizar. Nem vai ser mais rápido, nem vai ser lindo.

 

O primeiro problema surge com a temperatura da água. Estudos atestam que em 50% dos banhos a dois a frase “EITA QUE ÁGUA FRIA DA PORRA, ESQUENTA ISSO PELO AMOR DE DEUS” é dita aos berros. Nos outros 50%, de acordo com a estatística, pode-se ouvir a frase “EITA QUE ÁGUA QUENTE DA PORRA, ESFRIA ISSO PELO AMOR DE DEUS” também dita num volume bastante acima do normal. Resta um total de 0% de situações nas quais há concordância do casal acerca deste tema.

 

Na sequência começa uma espécie de dança das cadeiras na qual os indivíduos disputam silenciosamente quem ficará embaixo do chuveiro. Inicialmente tenta-se fazer isso de uma forma romântica, na qual quem está fora da água abraça lentamente quem está debaixo d’água, como fazem os casais das novelas. Porém, delicadamente o abraçante vai empurrando o abraçado até retirá-lo completamente da circunferência na qual cai água. Depois disso a coisa começa ficar menos sutil, dando lugar a cotoveladas, bundadas e frases como “sai daí mano que eu tenho que tirar a porcaria do xampu do cabelo”.

 

Outra parte muito difícil é ser o mais baixo do casal, o que faz com que toda vez que grandalhão coloque-se debaixo do chuveiro, voe água diretamente nos olhos do menorzinho. Pior ainda é se o menorzinho for uma mulher que não pretendia molhar o cabelo e estava sem touca. Aí lascou, sai cada briga que parece até Estados Unidos e Coréia do Norte decidiram tomar banho juntos.

 

O banho a dois é também uma espécie de zona franca para críticas absolutamente perigosas para a harmonia da vida em casal como “nossa, precisa lavar o cabelo com meio litro de xampu?” ou “nossa, desse jeito você vai acabar com o sabonete em 3 minutos”, ou “nossa, você vai entupir o ralo com esse tanto de cabelo caindo”. Nada, absolutamente nada de construtivo sai da boca das pessoas durante um banho conjunto.

 

Também há o fato de que nós, mulheres, insistimos em acreditar que, durante o banho, nós ficaremos parecidas com as moças dos filmes, com os cabelos lindamente molhados e a água escorrendo pelo rosto sorridente. Ocorre que quando saímos do banho percebemos que o rímel ficou todo borrado e o cabelo parece um ninho de rato, nos deixando semelhantes a um panda que colocou algas na cabeça e enrolou-se numa tolha.

 

A saída do banho e a questão da toalha são os desafios finais. Ninguém quer ser o primeiro a sair, porque todos querem ficar pelo menos dois minutinhos em paz, 100% em baixo do chuveiro, sem críticas nem cotoveladas. Assim surgem conversas como “cê já vai sair?”, “já já e você?”, “tô quase, mas se quiser pode ir saindo”, “beleza, mas se quiser sair primeiro, sem problemas”. É a segunda fase da dança das cadeiras.

 

Por fim, um dos dois sai. Começam berros como “CADÊ MINHA TOALHA?! CÊ VIU MINHA TOALHA?! ONDE É QUE TÃO AS TOALHAS PELAMORDEDEUS?’, depois de encontrar as toalhas- que por vezes, traiçoeiras, se auto-penduram no varal da lavanderia- o que saiu do banho tem uma ponta de dúvida sobre disponibilizar a toalha do outro, já que o peito está tomado pelo ressentimento e pela inveja em virtude dos minutos de acréscimo que a parte contrária desfrutou do chuveiro.

 

Não se enganem. Banho foi feito para tomar sozinho. Exceto se for aquele box de gente rica que tem dois chuveiros, mas aí nem se trata de “banho junto”, mas de “banho ao mesmo tempo”. Aí fica fácil. Mas nós, mortais de um chuveiro só, devemos nos proteger. Tomem banho sozinhos, depois bebam uma cerveja juntos. Melhor assim.