Poucas coisas no mundo são mais lucrativas do que o medo. O medo é uma indústria e uma garantia. Um povo com medo facilita muito a vida de quem está no poder. Trata-se de um mecanismo de controle muito poderoso: o medo nas igrejas, o medo nas escolas, o medo nos relacionamentos, o medo na sociedade. Quem está com medo não costuma incomodar.

 

E nós, mulheres, andamos incomodando muito nas últimas décadas. Começamos a ganhar destaque no mercado de trabalho. Ocupamos grandes posições em empresas. Representamos a maioria nos aprovados em uma série de concursos públicos. Criamos movimentos fortes para a defesa dos nossos direitos. Chegamos ao cúmulo de ocupar o cargo de Presidente da República no Brasil.

 

Incomodamos bastante. E parece-nos que o poder instituído atualmente no Brasil decidiu que precisava frear tudo isso. Assim que chegaram ao poder, nomearam 23 homens como ministros, deixando claro o que isso representava. Não houve nenhum equívoco, nenhum deslize, nenhuma coincidência. Nenhum. Eles sempre souberam perfeitamente o que estavam fazendo.

 

Apresentaram-nos uma primeira dama bela, recatada e do lar. Nos mostraram o ideal de mulher que nosso atual governo prega. Vestidos em tom pastel, dedicação exclusiva à família, sorriso no rosto, ausência de manifestações políticas, representando o avesso da emancipação feminina.

 

O Presidente da República disse, em rede nacional, que a participação das mulheres ocorre pelo fato delas saber os preços do supermercado. Seria cômico se não fosse trágico. Ele não se expressou mal, não foi uma mera declaração infeliz. Ele disse exatamente o que pretendia dizer e o que julgava que o país precisava ouvir.

 

Na sequência veio a reforma trabalhista. Todos os trabalhadores passaram a estar menos protegidos do que estavam. E, obviamente, aqueles que já eram os mais vulneráveis- esses tais trabalhadores que engravidam, amamentam e que diariamente têm medo de perder o emprego, mais conhecidos como mulheres- ficaram ainda mais inseguros.

 

Criou-se um cenário de medo de para a mulher no Brasil. Simone de Beauvoir escreveu que em tempos de crise os primeiros direitos a serem questionados são os das mulheres. Que os direitos femininos nunca são permanentes. E não deu outra. Eles precisam que nós saibamos que não somos bem vindas se não nos encaixarmos nesses padrões estipulados e vão se utilizar da lei para tanto.

 

A PEC 181, que pretende o absurdo do absurdo que é criminalizar o aborto até mesmo em caso de estupro, caminhando no sentido oposto a todos os países desenvolvidos, é a sequência do raciocínio do medo. Se toda mulher já tem medo de violência sexual, agora ela tem o cúmulo do medo, que é ser obrigada a ter o filho de estuprador. Ninguém está preocupado com o feto. Estão todos preocupados apenas com a redução da liberdade feminina.

 

Precisamos entender que todos esses fatos são peças de uma mesma engrenagem. Não há fatos isolados, não há coincidências, não há equívocos. Tudo faz parte dessa necessidade de ter um Brasil de mulheres com medo, cada vez menos seguras e menos combativas. E nós precisamos ser o avesso disso. Por isso, não vamos sucumbir ao medo. Não vamos nos calar, não vamos aceitar, não vamos facilitar para eles.