Perdoem-me os orixás e as cartomantes, nada pessoal. As tampinhas proféticas de refri, espécies de amostra grátis do futuro, e os biscoitinhos da sorte também, que me desculpem. Longe de esnobar as leituras astrológicas de nossos horóscopos e, por tabela, me desfazer do trabalho de pessoas que vivem em função de energias cósmicas extraterrestres. Até admiro quem tenha esse dom, o de, de repente, saber que minha sexta-feira será de turbulências amorosas, ou de sucesso no trabalho, se a lua ajudar. É lindo!

Isto não é uma afronta a nenhum desses arautos do amanhã. Trata-se mais de um manifesto, uma via em que vi a chance de, democraticamente, patentear as minhas projeções, sem entrar em choque com a Coca-Cola, os biscoitos e o Quiroga. Colocá-las lado a lado, no páreo, quem sabe talvez fazendo-as servir de complemento para aquele presságio meio furado que a dama de copas revelou do bolo de cartas.

O fim do mundo está na boca do povo e nas bolas de cristal das Mães Dinás. Foi assunto epidêmico, ainda mais em tempos de internet. O que deve ter acontecido é que algum arqueólogo do saber – o mundo está cheio deles – se escarafunchou num livro onde conheceu a profecia maia, latente, quietinha ali entre traças e poeira. iPhone. Twitter. Abre aspas: É… Foi bom conhecer vocês, mas o mundo acaba em 2012 #profeciamaia. Fecha aspas. Tweet now. Pronto: virose. Acompanhada por febre no cinema, com o filme “2012”, ou por escarradas literatas, como esta crônica.

Digo a vocês, leitores – especialmente leitoras -, que o indício sumário do cataclismo está no banheiro masculino. Aliás, o indício é a sua ausência no santuário ladrilhado. O cheiro, à pura urina, aspergida por franco atiradores de má pontaria aos quatro cantos, deve estar diluída na atmosfera por questões naturalmente contratuais. A derrota para os purificadores de ar nessa batalha olfativa seria o suspiro final. A coisa já teria ido para o brejo se a cultura secular do xixi no box tivesse sido abolida da terra.

Estaremos no bico do corvo no dia em que as mulheres decidirem entender as finais de campeonato, momentos de grande desafio do homem em admitir que sua virilidade, às vezes, se fragiliza ao dizer que ama a esposa, mas que vai trocar o jantar por 22 caras atrás de uma bola.

A hecatombe final virá quando o Google emburrecer. Ficaremos então entrevados em definitivo na ignorância não tão desconhecida, mas só revestida pela fina película de conhecimento, a demão dos primeiros parágrafos do Wikipédia.

O mundo acabará quando, antes, os bolos de vó forem extintos com os micos-leões e os botos cor-de-rosa. Quando congestionamento cair em desuso na gramática, desfalcarem o rol das milongas que argumentam os dias de atraso no trabalho.

Talvez sim, tudo isso aconteça, talvez não – mas quem se importa? O barato é isso mesmo: ver o fim pelo fim da linha que são as lorotas, quer minhas, quer das tampinhas de refri, ou do horóscopo. Mas nada pessoal.