Dizer o que da morte de seu Antonio? Que ele desentupia pias como ninguém? Que minha TV nunca mais ficou com defeito depois que o querido zelador colou alguns nacos de fita isolante no cabo da antena? Que era pedreiro de mão cheia, exímio entendedor de peças, sujeito de verve enciclopédica no ramo de pragas urbanas?

Não, não dava pra dizer nada disso. Não sei se era perito em encanamentos, se tinha vocação para a elétrica, ou sequer se sabia pintar uma parede, discernir uma porca de um parafuso, ou conhecer os nichos dos cupins. Nem sei se ele era tão querido assim. Quer saber mais? Fui descobrir o nome do zelador do prédio onde moro há 1 ano infelizmente só naquele dia e daquele jeito: com o aviso frio e impessoal que costumam ser os avisos colados nas paredes geladas do elevador.

Meu conhecimento sobre seu Antonio, o zelador, sempre ficou limitado às passagens diárias e protocolares na portaria do prédio pela manhã,  sob um determinado ângulo criado pela geografia estreita entre a mesa do porteiro e o elevador. De costas, debruçado sobre o balcão, seu Antonio parecia um cara legal. Deduzo – e só deduzo –  que seria do tipo gozador: maior parte das vezes, com uma piada nova no repertório, o verdadeiro remédio para as horas de pura chatice a que estão sujeitos o porteiro e o seu inseparável caderninho de palavras cruzadas.

Os contatos eram sempre iguais, rasos, às vezes até um pouco mal educados: era “bom dia” e, se tudo desse certo, as portas do elevador já estariam abertas. Do contrário, restava torcer para que meu gesto meramente burocrático não fosse mal interpretado e virasse a centelha para comentários laudatórios sobre o último jogo do Corinthians.

Ó, se enxergássemos os futuros no fundo do prato, ou no reflexo da pia da cozinha , a vida seria tão mais fácil!

Lamento a morte do seu Antonio por três motivos: o primeiro deles, evidentemente, pela perda. Não se deseja isso para ninguém, nem mesmo para vilão de novela das 8.

O segundo porque, ao que soube, sua propriedade intelectual não era lenda: a TV do 405 ficou impecável, a pia da senhora do 709 nunca mais entupiu e os cupins do móvel da família do 142 foram exorcizados pelas mãos quase santas do falecido zelador. Nunca terei esse orgulho, de dizer que meus eletrodomésticos foram desvirginados dos defeitos, de fios que se soltaram e que chegaram até a me privar das horas de relaxamento mental em frente à TV – sintonizada em qualquer porcaria.

Lamento, em terceiro, toda a minha covardia de enfrentar os fatos, a dura e fria realidade, frente ao condoído convite da viúva para a missa do sétimo dia. Rezar pra quê? Pedir o que no final das contas? Que ele volte para consertar minha geladeira, que parece ter esperado o homem bater as botas para ficar com defeito? Seria ingenuidade minha: Antonio partiu dessa para uma melhor! E eu? Eu continuo aqui: ranzinza, triste e, bem agora, com uma geladeira quebrada.