Muita gente usou a internet ontem para repudiar os ataques terroristas que mataram centenas de pessoas em Paris, na França. Uma parte suplicava pela paz. Outra parte manifestava indignação. Outra protestava contra a suposta desatenção dada pelas pessoas à tragédia de Mariana. E uma última parte pedia oração. “Rezem por Paris” “Orem”. “Pray to Paris”.

Clamar pela paz é justo. Mostrar-se indignado também. O que não dá é vir com essa de que nos esquecemos do que aconteceu em Minas Gerais. Como se fosse impossível lamentar por duas coisas ao mesmo tempo, ou como se uma tragédia pudesse excluir a outra. Infelizmente elas não se excluem. Um motivo a mais para que todos lamentem pelas duas juntas.

Quem postou pedindo oração parecia se esquecer que, naquele momento, uma das suspeitas pelo atentado recaía justamente sobre um grupo que, dentre outras coisas, reza demais. Reza e mata. Mata quem não reza.
Mesmo que agora todos saibam que foi obra do Estado Islâmico, ainda assim não é hora de rezar. Cabe por ora apenas o luto. O luto, primeiro, pelas vítimas. Principalmente por elas. Depois pela oração excessiva, pelo fanatismo religioso, que existe e lança a sociedade na ignorância cega, culminando na intolerância, na opressão, no ódio. Na morte.
Qualquer crença instituída é nociva à humanidade. Nada que seja imposto pela força, pela guerra, pela violência – seja ela qual for – vai levar a gente a um lugar melhor. Vivemos num mundo grande o suficiente para acomodar muitas diversidades. Não falta espaço. Falta mesmo é um pouco de vontade.
Não falta oração. Falta respeito: aos muçulmanos, aos judeus, aos cristãos, aos agnósticos, aos gays, aos negros. A liberdade está morrendo. Não reze por ela. Faça alguma coisa. Faça com que ela não morra.