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Ilustração: Lucas Tonon

Nunca foi tão difícil viver – especialmente se você é mulher. A verdade é que sempre foi. Ser mulher é um desafio do ventre à cova. Não adianta que nós, homens, digamos entender, respeitar, ou mesmo nos envergonharmos das atrocidades cometidas contra a mulher ao longo da história. Nós, homens, nunca vamos entender. Nosso respeito será sempre muito pouco. Vale apenas a nossa vergonha. Ter muita vergonha. Nenhum ser humano merece ser tratado como as mulheres têm sido. Mulher não é objeto. Mulher não é submissa. Mulher não é aquilo que o homem quer que ela seja. Mulher é gente. Mulher é homem. Mulher é MULHER.

Com vocês, Isabela Noronha*.  #AgoraÉQueSãoElas

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 “Filha,

a primeira vez em que escrevi sobre feminismo foi em 2008, para uma revista. A pauta deveria responder o que significava essa palavra tão familiar e tão estranha. Era pra caber em uma seção de uma página, bem guardada. Fiz meu trabalho: falei com especialistas, li um livro e alguns artigos, fiz o texto.

Passou um tempo antes que eu voltasse a escrever sobre o assunto. Em 2012, vi em um jornal inglês a Laura Bates e o seu “The Everyday Sexism Project” (http://everydaysexism.com), que reunia em um site relatos de mulheres vítimas de sexismo. Encontrei a Laura no norte de Londres para uma entrevista. O “The Everyday” tinha mais de 8 mil posts e recebia 200 mensagens por dia. E ela tinha sido ameaçada de morte por colocá-lo no ar.

Um ano depois, nos falamos de novo. As ameaças continuavam, mas Laura também. O número de relatos no site chegava a mais de 40 mil, tantos e tão fortes que ela tinha decidido escrever um livro com alguns deles. E tinha criado páginas específicas com os depoimentos de mulheres de 16 países, inclusive o Brasil (http://brasil.everydaysexism.com).

Mas a gente aqui já tinha espaços para isso. Como o Think Olga (http://thinkolga.com), que, além de colher relatos, publicou a pesquisa “Chega de Fiu-Fiu”. Entre as oito mil mulheres participantes, quase todas revelaram já ter sofrido assédio em lugares públicos.

Com você na barriga, fiz uma reportagem sobre aborto. Duas mulheres tinham morrido em clinicas clandestinas em poucos meses. Percebi a sacanagem da pergunta “você é a favor do aborto?” quando, na verdade, o que se quer saber é: “você é a favor de que uma mulher morra ou seja presa por escolher o que fazer com o próprio corpo?”

E então já era 2015. O ano em que você nasceu.

O ano em que lancei meu primeiro romance, com duas mulheres protagonistas. Escrevi para revistas femininas sobre sisterhood, sobre diferentes formas de amar, sobre assédio sexual e sobre sexo – nada de “maneiras de satisfazer um homem”, o assunto agora era o nosso prazer. Feminismo ocupava bem mais que uma página.

Foi o ano em que, no Enem, teve Simone de Beauvoir e o tema da redação foi violência contra a mulher. Em que a Malala definiu que “feminismo é outra palavra para igualdade”, a Jout Jout disse para a gente fazer um escândalo e muitas de nós fomos para rua.

Na internet, as campanhas #primeiroassedio (também do Think Olga) e #nãoaopl5069 foram abraçadas por um monte de gente, mulheres e homens. Assim como a #agoraéquesãoelas, que me deu a chance de fazer esse texto para você.

Já tinha mais de cem anos que as mulheres lutavam pelos seus direitos, mas a gente sentia que era apenas o começo.”

*ISABELA NORONHA, 35, é jornalista e escritora – autora dos livros “Resta um” e “Adeus é para super-heróis”.