Ilustração: Felipe Blanco

Aos quatro, ficar mais velho era mais questão de perícia do que longevidade. Entraria para o clã quem adquirisse poder sobre os próprios cadarços: uma vez amarrados por você mesmo, aquelas duas orelhinhas mais ou menos simétricas do laço seriam o passaporte da alegria do Playcenter que era a vida adulta. As melhores pás da caixa de areia, o balanço que ia mais alto, entrar no rodízio de quem seria o Flashman vermelho do dia. Todas prerrogativas de uma seleta minoria abençoada pelo livre arbítrio de seus pés.

 

Com 10 anos, PhD em laços duplos, triplos,e até apto a fazê-los com o mesmo esmero de olhos vendados, comecei a suspeitar que estava bico demais ser adulto só porque não andava com os tênis desamarrados. Ser mais velho era mais que isso. Era alçar se não voos mais altos, pelo menos os que me permitissem fazer um bate volta ao mercado a umas quatro quadras de casa. Sozinho. Aí sim: cadarços sempre impecavelmente amarrados, com a alforria assinada para limites além-mar. Finalmente mais velho de novo.

 

Mas se há algo de efêmero nesta vida, esta coisa é a nossa noção de maturidade. Quando cheguei aos 15 anos, lá estava eu de novo, com espinhas gritando na cara, porém certo de que aquelas marcas não significavam absolutamente nada além de um desnível hormonal, como o próprio médico já havia dito. Não vou me esticar muito sobre essa fase, porque já escrevi sobre o que comprar cuecas, no fundo, significava para mim a esta altura da vida. Resultado: pude estufar o peito e engrossar a voz novamente.

 

Durou três anos a sensação boa de plena autonomia  e o gostinho de ver o mundo do alto dos meu 1,86m. Depois, ao bater a cabeça nos 18, nada disso fazia mais sentido sem poder dirigir minha vida sobre quatro rodas. Um carro. Os mais velhos tinham um carro e a licença para pilotá-los. Eu não.

 

Então tirei a carteira de motorista, comecei a morar sozinho, a pagar minhas contas com um dinheiro que um dia veio do trabalho de terceiros. Hoje não mais – e tornou-se então a minha mais nova credencial para a maioridade. Mas ela foi para a cucuia outra vez dia desses, quando localizei no matagal do cocuruto,  albino na África, um único e desolador fio de cabelo branco. “Não fosse isso e era menos”, diria Leminski em sua defesa. Digo o mesmo, com o perdão do uso indiscriminado da sabedoria poética.

 

Não quero de maneira nenhuma travar aqui um embate entre cabeças brancas versus cabeças coloridas, chamar na chincha William Bonner ou Cid Moreira pra fazer uma apreciação e ver, afinal, quem é que tem o direito de ser o Flashman vermelho do Jornal Nacional. A questão é outra. Só queria dizer que, depois dessa papagaiada toda, de repente, me bateu uma saudade forte de quando eu resumia essa coisa de toda cabelo branco a saber ou não amarrar o tênis. Envelhecer jamais foi nada daquilo.