Há um tempo, me desboquei: chamei o banheiro de santuário, seguindo cegamente a toada do texto e o instinto. Foi o anjo das trolhas, que sempre à espreita, me puxou pelo braço na ocasião: vai, Ricardo, ser gauche na vida.

Ora, evocar a imagem da privada no meio da igreja na mente de tiazinhas taradas na barra da batina pode ser profano. Mas não tanto, há males piores: as brigas de torcida, por exemplo, Brasília, as segundas-feiras, para não falar dos sacrilégios famosos, como os banhos no inverno, tão graves quanto os goles de Yalkult.

Agora, os banheiros… São divinais.

Não houve outro jeito de classificá-los se não os botando no mesmo balaio que uma Capela Sistina versão Duchamp – mais ready made impossível: da vasta coleção de urinóis, de novas noções da beleza exploradas na brancura dos azulejos de atacado e de uma atmosfera, sabe lá Deus por que, cheia de poesia. Filosofias finas, sabedorias que transbordam a mente humana e a privada entupida da terceira cabine. Penso, logo fui ao banheiro – teria dito Descartes, se o filosofal defunto me permitir a sanitária contextualização.

A conversa de uma mijadinha amistosa, senhoras, felizmente nem sempre foi o anúncio mal educado de um ogro apertado. A expressão é toda bem intencionada, porque o homem que vai nunca é o mesmo ao voltar. Banheiro vira toillet; xixi, urina. E, de ogro, o mulambo passa a galã.

O retorno, claro, como faz questão de informar, é flutuante, sem o peso da bexiga cheia. Vem em passadas folgadas, ares mais galantes, alardeando uma sabedoria atraente com citações de Goethe, Jung, ou mesmo só alguma grande filosofia recém elaborada sobre o nada, dessas pensadas entre o esmero da assinatura da obra e o arrepiozinho final.

A magia banheirística proporciona o direito à licença poética a qualquer cabeça de bagre, seja eu ou o autor da frase atrás da porta da última cabine da empresa: “não faça na vida o que você faz aqui dentro”, disse o poeta de ocasião. Eis aí a beleza, toda pública, para o livre uso de almas que, por um instante, viram nas costas da porta de um banheiro público a salvação para o seu sofrimento.

Ah, as frases e seus efeitos, filhas da filosofia marginal dos banheiros de estrada. Por isso, lindas! Ou há outro adjetivo para toda a versatilidade do “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”? Genérico? Talvez, mas quem se importa? Na hora do aperto, o plebeu sempre parecerá o mais belo.

Poxa… Se ela soubesse tudo, exatamente de tudo sobre a cantada que nos uniu feito tampa e panela, eu não sei, talvez nem estivéssemos juntos. O beijo seria um sopapo de mão cheia, pode ser. E talvez até hoje eu estaria sentado em algum banheiro por aí, caçando cultura barata. Mas linda.

Banal.

Mas eficiente.