Ilustração: Felipe Blanco

HAHAHAHAHAHAHA

Rio assim de muita coisa: piada boa – e dependendo da ruim também – passarinho que esmerdeia cabeça alheia, Mister Bean, Mazzaropi. Rio até de palavra: palavras ditas até que soltas, ou enroscadas numa frase, me fazem gargalhar como o diabo, mal educado que só.

São sorrisos impertinentes os dados de soslaio, escondidos nas dobrinhas do canto da boca. Te colocam na saia justa de precisar convencer o interlocutor que (não! pelo amor de Deus!) ele não está com um feijão nos dentes. Foi o que ele disse, sei lá, “sovaco”, “balacobaco”, “gorgonzola”… HAHAHAHA – como não rir?

“Desculpa! É que acho ‘bunda’ uma palavra engraçada”, argumentei certa vez a uma amiga, que contava alguma coisa sobre ter levado um pé nas fartas nádegas. E ela me entendeu. Rimos feito bêbados depois, noite adentro, até o dia raiar, porque descobrimos mais tarde que “bunda”, em húngaro, é o nome dos pêlos que enfeitam casacos.

É um desvio de comportamento preocupante, eu sei. Me dei conta da gravidade no dia em que comecei a rir de Chico – que é Chico: ele cantando os “peitinhos de pitomba” em “Carioca” e eu me mijando de rir em vez de mentalizar a delicadeza dos seios durinhos e salientes daiisxxxx mulheriiiiiisxxxxxxx de Ipanema.

Na mesa de um boteco abri o jogo, costuma ser a melhor terapia pras cagadas da vida. Aproveitando que estava com umas e outras na cabeça, contei tudo, da “bunda”, “pitombinhas” que me custaram caro, sobre meu problema com “verruga” (segurei pra não rir), poxa vida, disse em falso desespero, vou ficar pra tia assim.

E em vez de me tirarem do vício, me atolaram no lodaçal do meu distúrbio: terminamos a noite breacos, caçando na “gororoba” (HAHA) das nossas memórias a “paçoca” (HAHAHA), a “fronha”, as “bolotas de catotas” tiradas com esmero do nariz, numa conversa que durou horas e que podia ir, sem medo, direto pro “pinico” (HAHAHA – essa é boa demais!).

Não sei o que me causa esses efeitos, sinhô leitô. Talvez a pronúncia, terminações em “oba”, “ico”, “teco” “peleco” “telecoteco” são gozadas pra dedéu. Já sugeriram o dicionário, doutores Aurélio, Michaellis, o Larousse tem nome gringo, deveria ser bom. Eles sim, me dariam a cura, sinônimos que podem ter ares mais sérios. Eu me recuso: do que entendem esses parrudos assentimentais? São ginecologistas do léxico. Pegam a palavra que, arreganhada, revela todas intimidades etimológicas, as morfológicas, os detalhes tão precisos, tão verdadeiros, mas todos sem o menor pingo de graça.

Fica então só a frustração e um constrangimento bem maior do que aquele quando rio da cara de alguém por causa da “bunda”.

Quer saber? Vou parar com essa frescura.