Ilustração: Felipe Blanco

O mundo está ficando surdo, amigos. Também, tirando-lhe as orebas queríamos mais o quê? Que ele fosse melhor? Mas como, cazzarola, se do nada baixa na gente o espírito do Jack Estripador e saímos por aí arrancando orelhas? Sem orelhas, orelhinhas ou orelhões não há santo que ouça. Pobre mundo que, aliás, não deixa santo nenhum pra trás.

Antes de não perder a maioria dos seus ouvidos, quando do supermercado até em casa eu trombava  com três de seus orelhões, o mundo era meu maior confidente. Custava uns caraminguás, mas, vá lá, era nada pra uma ficha de metal que me daria a chance de contar a ele minhas milongas. Ah, e cada uma, lembra mundão? Mundo? Ah, é verdade…

Uma vez foi uma bronca que tomei da minha mãe depois de perder uma passagem de ônibus  que acabara de comprar. Dando-me conta da falta, respirei fundo e dividi com meu comparsa um pito materno, com direito a nobres premiações como um mês sem brincar na rua.

“Ouviu, Ricardo Antonio?”.

Ouvimos, mãe.

A infância se perderá conforme a profecia do poeta à medida que o último orelhão, ouvido do mundo, for arrancado de si. A previsão não foi à toa, pois ele, lá atrás, já via que uma hora a molecada trocaria os trotes pelo Angry Birds.

A gente se divertia à beça, lembra?

“Alô? Por favor, por um acaso tem um carro verde em frente à casa da senhora?”
“Não meu filho, por quê?”
“Ah, então porque ele já amadureceu”.

TU-TU-TU-TU – era assim que ria o mundo.

Se dependesse de mim, caro leitor, elegeria como medida de urgência o decreto pelo tombamento das orelhas mundanas. Artigo primeiro: estará sujeito a confisco de aparelhos celulares qualquer cidadão que comprometer a integridade auricular do mundo.

Emperiquitar meia dúzia de orelhões da Paulista é ok, acho válido, dá um upgrade no visu e mantém os poucos contatos auditivos do nosso eterno hospedeiro com a gente. Agora, tirá-los nunca! Ou vamos enlouquecer com tanta gente berrando pro mundo não ouvir.

Mundo mundo, vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo, seria em homenagem a você, um grande amigo que um dia me escutou, mas que hoje não me escuta mais.