Era cor de goiaba a casa de onde logo mais vou sair. Justo agora que vou embora, a pintaram de azul em degradê, coisa chique. É uma pena porque não vou poder me orgulhar de morar na única casa azul em degradê da minha rua, onde todas as construções tem cores de goiaba para baixo.

Em 22 anos de vida, que não considero mais tãããõ pouco, esta é só a segunda vez que me  mudo desde minha vinda aqui para São Paulo. E a sensação não é a das melhores, afinal não se trata de um processo meramente espacial, mas de um processo que requer uma dolorosa readaptação psicológica.

Só quem já passou por mudança para entender. Explico melhor: o velho sentimento de domínio sobre o território, de poder sair da sala no escuro e conseguir encontrar a geladeira para sacar uma cerveja, esta relação íntima com a sua antiga morada, esta demorará a voltar.

Parecerá traído pelas suas próprias coisas enquanto, na realidade, quem o engambelará vai ser a nova organização de toda sua parafernália jogada num lugar onde você mal  dará 3 passos no escuro, quanto mais conseguirá atravessar da sala para a cozinha pegar uma cerveja. Até lá, isso vai lhe custar muitas cabeçadas na parede, chutes nas quinas dos móveis, tropeços aqui e acolá mais das vezes convertidos em hematomas.  Mas com o tempo (e só com ele), a relação se estabiliza e o percurso da sala para a cozinha lhe garantirá uma cerveja na certa, sem nenhum arranhão no corpo sequer.

Será com melancolia que deixarei minha velha conhecida casa cor de goiaba, que não deixou de ser conhecida depois de ser tingida de azul em degradê. Os caminhos ficarão obscuros novamente, terei muitos hematomas e galos na cabeça. Vou contrair crises psicóticas de traição e a cerveja ficará mais difícil por um tempo. Mas isto passa. Não vai passar a minha tristeza de não morar mais na única casa azul em degradê de uma rua onde as construções são cor de goiaba para baixo.