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Ilustração: Lucas Tonon

Tem coisas que a gente acha que só acontecem com os outros. Só o carro dos outros é roubado, só os outros ganham rifas, só a mãe dos outros tem Facebook. Mas nós não estamos imunes a nada disso.

Pode ser que um dia nosso carro seja surrupiado, ou, até mesmo, que nossa mãe tenha um siricutico no fubá e decida, de uma vez por todas, não ser mais uma eremita digital, deixando-se ser sugada, timeline abaixo, pelos ralos da internet.  Essas coisas também acontecem com a gente – menos, talvez, ganhar a rifa, um ardil forjado especialmente visando o sucesso alheio, jamais o nosso.

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Comigo foi na terça-feira. A vida corria normalmente até as 10h46, quando minha mãe foi apresentada ao Whatsapp. “Oi ri bom dia e a mae anota asi mreu nuimerop”, dizia a primeira mensagem, das muitas que passei a receber desde então. As primeiras foram assim: confusas, sem vírgulas e com erros claramente cometidos pela falta de familiaridade dos dedos com um teclado touchscreen.

Não demorou para que, logo, as mensagens começassem a chegar perfeitas, com direito até aos acentos que ela deve ter descoberto com a ajuda da minha irmã. E, para o meu espanto, com emoticons, em tempo recorde – uns quatro recadinhos depois. “Como estão as coisas por aí? =)”, “A mãe está com saudade =(“, “Te amo <3”.

Hoje, sexta-feira, ela mesma admite: sou usuária. “Ri, a mãe já adicionou um monte de amiga da faculdade. É muito legal esse negócio”, reconheceu ela, via mensagem de voz, demonstrando domínio de todos os parananuê da bagaça. 

A resistência acabou. Mais uma vez a tecnologia domou um homem pela sedução. O  último que sobrar, apague a luz. Isso se alguém resistir até lá. Ninguém resiste.

As coisas que um dia achávamos que nunca aconteceriam conosco acontecem, sim. O carro roubaram. A rifa: nunca será. E minha mãe deu um primeiro passo: começou pelo Whatsapp, onde descobriu os emoticons. Logo, logo estará rindo por aí com “rsrs” e “kkk”. Então vai querer um Facebook. Depois um Instagram, depois um Snaptchat, um Twitter… E espero que acabe por aqui, antes que ela queira também o Tinder e tudo lasque de vez.