Ilustração: Felipe Blanco

Bom, agora num tem mais jeito. É hora de pegar no batente e seguir em frente, já diria o poeta. Ou, como bem realmente lamentou um – o grande Carlos Lyra – “acabou nosso carnaval”. Acabou-se, c’est fini: fim de festa, da promiscuidade necessária, fim do tesão que no calor do momento a gente chamou de amor. Porque no carnaval tudo é amor até que acabe a cerveja. Depois que a cuíca para de gemer, os pés também param de sambar, as bocas, de beijar e o tesão, de ser amor.

Inventou-se então a quarta-feira de cinzas pra tentar salvar o pouco da quintessência que resta nas coisas: o romance não é só um lance e a transa é dádiva pela paciência de uma pobre alma, que só fez o bem-bom depois de juntar os trapos. Antes disso, neca de pitipiribas. É um beijinho aqui, outro ali e olhe lá.

Na cinzenta quarta é preciso de muita cinza, sacas e mais sacas dela, pra purificar tanta gente que se perdeu no requebrado do pecado entre bundas, bundonas e bundinhas. Cantavam assim na avenida:

“A mulata foi rebolar na passeata. Olha aí!
Vinha caindo de charme,
Vinha caindo de amor,
No sorriso.
Ela trazia uma flor.

E jogava um beijinho lá
E jogava um beijinho cá”.

Com toda a putaria comendo solta, pensei eu, cedo ou tarde, capaz até que o Papa largue a batina, descrente da salvação desses tantos foliões acesos.

Bom, agora não tem mais jeito mesmo.

Não dá mais para enrolar, eu bem que tentei. O repertório de marchinhas acabou. Confetes e serpentinas também, tal qual meu estoque de groselhas pra contar.

Mil amores possíveis voltou a ser profano ofício de cafajeste.

O samba, música de boteco.

E o tesão, tesão – mesmo depois de tanta penitência, cinza e bacalhau.

Avante, incansáveis foliões da pátria amada Brasil! Dispam-se de vossas fantasias. À luta! Ano que vem tem mais.