Não faz muito tempo que descobri ser um entusiasta da culinária. Volta e meia, lá estava eu, de avental, a faca em riste, pronto a descascar uma cebola, a picar couve, a fritar um bife, dependendo do cardápio que estava disposto a copiar da televisão. É de lá que vêm não só minhas receitas – que não são minhas – como também o impulso diário de me lançar ao desafio de cozinhar.

Tudo foi  muito de repente: de uma hora para outra, sem mais, nem menos, passei a assistir a programas de gastronomia com a mesma avidez antes dedicada exclusivamente ao futebol. Hoje, seguramente pendo mais ao programa da Palmirinha do que a um jogo do Santos pela Copa do Brasil.

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Cozinhar virou um vício rapidinho. Era legal, servia de terapia e ainda por cima fazia um bem danado para o ego. Só precisava botar no Instagram. Publicava repetidamente, a cada nova obra-prima feita, como se fosse uma criança empolgada, querendo ostentar novas habilidades ao mundo. “Olhem só o que eu sei fazer, ó, ó, ó”. Foram vários likes, uma enxurrada de elogios: “larga o jornalismo”, “tá com a cara ótima”, “MasterChaps”. Esse último virou até hashtag por um tempo.

Muitos homens estão assumindo publicamente seus aventais, suas colheres de pau, o cheiro de alho nos dedos.  A pergunta que passei a fazer a mim mesmo é: por quê? Qual o motivo de saírem desse armário? Tomara que não sejam pelos mesmos motivos que me fizeram sair.

Lugar de homem é na cozinha – e, de preferência, o tempo todo. É muito fácil dizer isso quando a intenção é só cozinhar para chamar a atenção de alguém, ou simplesmente para recuperar a vaidade, em momentos de depressão. É muito fácil declarar amor pela culinária quando temos a opção de escolher se estamos ou não a fim de preparar o rango. Difícil mesmo é manter a paixão quando essa opção não existe, num dia em que o prato principal não será um cordon bleu com queijo brie, mas arroz, feijão e um bife para os filhos que chegarão famintos da escola.

Homem que ama a cozinha precisa começar a ouvir mais Vinicius de Moraes. “E o que há de melhor que ir pra cozinha. E preparar com amor uma galinha, com uma rica e gostosa farofinha”. Não precisa ser necessariamente para o “seu grande amor”, como diz a música. Se for, ótimo. Só não deixe a louça para ela depois. Lugar de homem é na cozinha: e na cozinha, se faz, se suja e se lava.