Todo o meu respeito às pessoas que decidiram pelo assassinato de seu “eu” nas redes sociais. Se há um crime que compensa, dizem elas, o crime é esse: acabe com o seu Facebook antes que ele acabe com você primeiro. Muitos tentaram me convencer usando todos os artifícios imagináveis de persuasão, mas cá estou, resistindo firmemente a um deleite que não sei bem como explicar.

Ilustração: Felipe Blanco

Neste exato momento, por exemplo, o tempo que você levou para sair da última linha do parágrafo anterior,  saltar a imagem e chegar até aqui foi o suficiente para eu dar uma espiada no meu Facebook, mesmo sem estar esperando exatamente alguma coisa de lá. É pura inércia, a nova física da contemporaneidade que diz que um corpo em repouso tende a parar no Facebook, da mesma maneira que aqueles que estiverem em movimento, acelerado ou não, também.

Trata-se de algo mais forte do que nós, um impulso inconsciente que, quando nos damos conta, nos levou a um ralo do qual, por mais que nademos, não temos escapatória. Pouco a pouco nos deixamos assediar pelo próximo post, e pelo próximo, e pelo próximo, nem sempre tão interessantes quanto o anterior. Mas quem sabe o seguinte não seja?

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Assim cavamos a sepultura de nossos afazeres, que se diluem entre selfies, notícias bizarras e opiniões às vezes até mais bizarras do que o noticiário. Um oceano delas:  dos visionários de plantão, do pessoal mais libertário, dos reaças que descobrimos por acaso na nossa lista de amigos, piadinhas. Encontramos ali nos murais azuis um espaço infinito para pendurar nossas chorumelas ao bel prazer, alardeando nossas intimidades sem nos preocupar com a poluição da timeline alheia. Nós não suportamos mais conviver com o silêncio, ou simplesmente permanecermos nele. É preciso comentar se quisermos ser alguém no mundo. O silêncio esconde. A fala é que nos projeta.

Alguém usou esse  mesmo argumento quando justificava para mim sobre os motivos de ter deletado a sua conta na rede social. Pareceu-me compreensível, embora não muito razoável para mim. É claro que nem tudo na vida virtual será um mar de rosas, tendo a gente de lidar com bizarrices de primeira, segunda, ou terceira classe. Mas as barbáries têm seus autores, um dia escolhidos por nós, para integrar um rol de amigos que teoricamente deveria ter passado pelos crivos de nossa decisão: aceitou ou não a solicitação de amizade? Se sim, não podemos nos esquecer que estamos assumindo ali as consequências embutidas a qualquer nova amizade agregada ao Facebook, dentre as quais tolerar spams, músicas ruins contaminando sua timeline, mensagens de autoajuda, fotos do prato de cada refeição que o cidadão faz.

Arrependimentos existem invariavelmente, mas não que isso deva se desdobrar em condutas tão radicais como o próprio suicídio no Facebook, Twitter, ou qualquer outra rede de convívio social. Pode ser que só uma faxina resolva. Basta bloquear os impertinentes, varrer os maletas, despoluir as linhas de sua vida virtual.

São apenas conselhos. Não quero, com isso, ser o chato da vez. Também respeito sua cisma em ouvir sugestões de um viciado confesso feito eu. É como tentar se curar do alcoolismo na mesa de um bar. Mas calma, pera lá, não suma assim. Digo sem saber se um dia me irritei com você, ou se o contrário. Se aconteceu, peço perdão. Me bloqueie. Me exclua da sua lista de amigos. Me odeie em silêncio. Da minha parte, prometo postar menos e observar o mundo do meu canto, quietinho também.