Achava o vazio a coisa mais triste deste mundo até a hora que tomei um peteleco de Gilberto Gil, pedindo pra, pelo amor de Deus, sacudir a poeira: “é sempre bom lembrar que o copo vazio está cheio de ar”, cantarolou o baiano tropicalista.

Não sei Gil, mas eu bebia água na ocasião. Antes disso, aquele mesmo corpo vítreo barato que agora eu encarava clinicamente me serviu vinho, uma cerveja gelada num dia quente, Coca certa vez e, cheio de ar como estava, era a promessa velada de mais vinho, mais cerveja e menos Coca – além de outros orgasmos etílicos.

Pra que tristeza então, guru das louças? Chore um pouco, sorria bastante depois. Há samba pra sambar, poesia pra ler, há dinheiro pra ganhar e depois gastar. Há amores pra descobrir que não são amores e um que deve ser o seu perdido em meio a tantos gueri-gueris carnavalescos.

Se não fosse esse latifúndio de nada não teríamos espaço pra rebolar, pra gostar do errado, odiar o certo e, no fim, descobrir que era pra ter sido tudo ao contrário. Se não fosse o vazio e as taças da vida cheias de ar não teríamos chance pra um vinho rosé, que culminaria em outra paixão, que te apresentaria a boa música, que te ensinaria alemão, que terminaria (ou começaria) quem sabe na cama, que te fizesse sorrir então depois de muito tempo.

É quando pés na bunda devem ser cartas de alforria pra desejos recalcados e quando a gente descobre que o abismo em que acreditávamos ter chegado na verdade não existia, era só um mata-burro entre um fim e um novo começo, a pausa entre um bloody Mary e uma cuba-libre. Ah, meu caro leitor, a carta de vinhos é vasta, o bar, cheio de surpresas engarrafadas. Não há vazio que suporte a sedução de um corpo, nem plenitude que se renda à leveza de um nada. Por isso, sente-se ao balcão sem nada pra dar, só a receber: aventure-se na secura de um dry martini, depois passeie com o Jhonny Walker, mas esteja aberto mais tarde pra uma loiraça encorpada e oferecida.

O emprego perdido não será o primeiro, o segundo, o último. O mesmo digo pros pés na sua e na minha bunda: muitos serão. Com eles, copos cheios se esvaziarão e nós teremos a ciência de que aquele Atacama a nossa frente é o fio da esperança que se renova e que dá toda a graça à vida.

Enquanto isso, apenas não chore. Senta. Toma um copo. No fim estaremos todos rindo.

Mais uma taça de vinho rosé, por favor! (hic!).