Crônica em homenagem ao aniversário de São Paulo

Repare só: entra ano, sai ano, quase um mar de água passa debaixo da ponte, aniversários vem e vão e o problema com os convidados continua sempre o mesmo. Não adianta, é batata, eles não aprendem. Um erro que sobrevive não pela displicência do dono da festa que, bem verdade, já foi muito mais generoso nos tempos em que via um fio de esperança ao bancar as coxinhas e os guaranás. Pena que não é coisa que se resolva em quitutes.  Os buracos no estômago passam, mas a ingratidão da criatura em questão não, essa fica – até porque depois tem o bolo!

Eis que os foliões mais enérgicos, fartos das faces talhadas na mais dura e brilhosa madeira, cortaram a mordomia e lançaram a última moda do “se quiser, pague”. Foram contestadíssimos pelos convidados de plantão obviamente.

É um carma cíclico, um problema atemporal. Existe desde que o homem é homem e aderiu à sua cultura o costume das festas. De lá para cá, quantos ancestrais foram convidados, carregando inconscientemente deveres que compõem a boa etiqueta da espécie, embora nem sempre sendo fiéis a eles. Quantos migués, quantos joões sem braço que não trouxeram o presente porque esperaram que o aniversariante caísse no velho e antiquado conto do vigário, que perdura há gerações: “puts, bicho, num deu tempo, depois eu te trago”. Pior do que a ladainha batida sobre o tempo escasso é que o presente sempre será lenda: não fica para o amanhã, muito menos para o próximo ano,  com reajuste do próximo presente.

No começo é um baque, interpretado talvez como um atentado ao decoro universal dos aniversários e até a nos impelir a conclusões mais levianas como crer na absoluta desconsideração dos amigos. Seres de coração mole, aniversariantes sucumbem e acabam digerindo, de nariz torcido, a falta de um único mimo material no seu dia. Não cedem, no entanto, quando sequer o cordial e burocrático cumprimento não escapa dos lapsos da memória. Estão ali por que, afinal? Porque eventualmente é feriado, lembrou que teria uma festa sem saber de quem, onde e que horas, com open bar e comida free?

“Comamos, esbaldemos enquanto é tempo e haja comida”, devem pensar. Um nicho que se prevalece, acima do bom tratamento aos anfitriões da festa, dos empregados, acima do bom senso em não vomitar no banheiro, em não rolar no jardim, bêbado; acima do desrespeito aos amigos gays do aniversariante, das piadas ácidas e inoportunas; que se prevalece acima de tudo e de todos. Data querida, só se for por isso.

E ainda dizem não entender a razão dos cortes das coxinhas e do guaraná na faixa.

Convidados… Sempre iguais. Só mudam de endereço.