Foi numa caminhada pelo bairro que tive este breve sobressalto reflexivo.

Homenagens são universais, menos os métodos para se laurear alguém, qualquer que seja a façanha. No velho continente, por exemplo, ou as figuras ganham o garboso titulo de “sir”, ou a família recebe as honrarias e entra para a história.

Já aqui no Brasil, pensando muito com meus botões, numa inferência quase que tão memorável quanto a invenção da luz elétrica, sem contar a chamadinha rasteira no jornal da cidade, o homenageado vira nome de rua. Já percebeu?

Pois eu já. E ia te convidar para reparar também. No passeio por onde comecei a crônica, trombei com as intrigantes Angélica, Dona Veridiana, a curiosa Maria Antonia e com um tal de Major Sertório, que deve ter sido algum bam-bam-bam. E não sei por que cargas d’água me veio a seguinte história na cabeça:

Angélica devia ser tal como é a avenida: jovial, linda, e não me perguntem por quais motivos, mas acho que morena. Tem cara, sei lá. Nascera do casamento entre o milico Major Sertório e a fidalga paulistana, filha de cafeeiro, Dona Veridiana. Eram ricos e tinham o mundo na centelha de um poderoso estalar de dedos. Do outro lado da rua, morava Maria Antonia, pobre no dinheiro, mas dona da mais rica beleza do centro de São Paulo. Linda, exuberante, espetacular. Tamanha que o major não resistiu aos encantos e caiu nas perdições que eram as curvas hipnotizantes da vizinha, embora suas gostosuras ficassem ocultas debaixo do denso e comportado vestido usado na época.

Aconteceu que Dona Veridiana pegou o marido não só com a boca na botija, mas também em vários outros lugares. Ficou pê da vida, sacou uma das armas do major e, acompanhada de Angélica, aos berros, foi tomar as devidas satisfações. Mas quando foi apertar o gatilho, Maria Antonia, pobre, linda e esperta, atirou primeiro com a pistola que estava presa na calça do milico, amontoada num dos cantos do quarto. Ainda aos berros, Angélica pulou na frente da mãe e caiu dura no chão, ensanguentada.

Essa história deve ter ficado famosa no bairro, passando por várias e várias gerações de vizinhos fofoqueiros. Até que um dia uma nobre alma resolveu batizar o nome das ruas onde ocorreu o fatídico caso com o nome das personagens. Angélica, pelo heroísmo; Dona Veridiana, pela bravura de ter vivido sem a filha depois; Major Sertório, bem, talvez por ser majoritariamente adúltero; e, por fim, Maria Antonia, por ter suportado tanto tempo na prisão [bateu recorde].

Terminei essa minha digressão exatamente na esquina da Maria Antonia com a Consolação. Consolação… Curioso: tudo a ver com Dona Veridiana…