Deve estar escrito no rótulo do xampu, ou no verso das tampinhas de refrigerante que nós brasileiros somos seres abençoados e predestinados à infâmia das piadinhas envolvendo futebol, mulher, carnaval e a nossa amiga cerveja, que vai muito bem, obrigado. Justo ela, a loura que ganha as curvas ao bel prazer de nossos copos, a preciosidade que fungos e leveduras escondem nas mesmas profundezas onde nascem as micoses e as frieiras, virou alvo de ultraje daqueles que se orgulham em tomar, em vez disso, um desgraçado copo de Coca-cola.

Isso não é um desabafo de um trauma pessoal, mas se trata de uma realidade compartilhada entre nós brasileiros sem nenhuma exceção posta por classe, sexo, profissão, preferências por cor, ou por música. Todos preferem, é verdade, os laços da refrescante amizade que a cerveja nos traz nos mais diversos dias, climas e ocasiões. Não tem como negar, se até mesmo nosso ex-presidente nunca foi poupado das barbaridades que já disseram a respeito de sua intimidade com ela: era na cama, na mesa, no sofá; em casa, na casa da sogra, do amigo, de um conhecido, não importava, bastava ela estar ali, aguardando, toda encorpada na geladeira.

Que me perdoe Lula pelo atrevimento com sua paixão e me perdoe você, que está mais para morena que para A loura, mas fato é que ela é gostosa e ponto final, sem delongas sobre o misticismo de suas origens, ou sobre sua inconstância de comportamento quando não está devidamente resfriada. Afinal, quem liga pra isso?

Eu, você, o Lula, o Ronaldo… Todos nós ligamos. Pra se ter uma ideia, a cerveja tornou-se não só nossa figura de um amor shakespeariano, como também foi adotada como fator de qualidade que, muitas vezes, guia nossas escolhas em momentos de impasses cruéis que atravancam o encontro marcado com ela. Se a cerveja é gelada, ótimo; caso contrario, procuramos um lugar onde ela esteja no clima.

Numa dessas minhas jornadas, numa quinta-feira de muito calor, optei pela imundície de um boteco de esquina, obscuros esconderijos onde gelam aqueles corpanzis morenos de essência dourada. O bar era o certo, o dono é que não. Mais uma da série: “cerveja boa no lugar errado”, quer coisa mais broxante?

Um coreano era dono da mina de ouro. De português pouco entendia, embora esbanjasse uma facilidade marciana no assunto universal das cifras.

“Quanto tá o fardo?”, perguntei.

“Tlinta e seis leiais, tlinta e seis leais”, respondeu, ligando a opção “português”.

What?

A moral da história não é para você largar mão da louraça, imagine (toc, toc, toc). Mas tenha a certeza de que as piadinhas sacanas de nossa condição de amantes de cerveja estão não só nos rótulos de xampus e tampinhas de refri, mas habitam, acima de tudo, nos empreendimentos coreanos. Saibam, prezados orientais, que meu amor resistirá a qualquer custo a esse gosto por inflacionar a felicidade alheia.