Antigamente, lá de onde eu venho, quem tomava banho de cinco minutos era chamado de porco. Disseram-me que antigamente também a tal alcunha valia para os lados daqui da capital, mas acabou virando título de nobreza de uns tempos para cá pelo que vi. Uns dizem ser culpa de São Pedro, outros falam de politicagem, mas, no fim, a gente acaba ficando sem explicações sobre essa evolução tão meteórica.

 

Fato é que o Cantareira está secando e quanto mais os porcos economizam na água e no sabonete, mais heroica fica a nossa nação. A epopeia é, em tese, bem simples: quanto mais rápido um cidadão fechar as torneiras, maior herói será.

 

Na  mais tenra infância, lembro bem, eu pouco me importava com a pecha de Cascão. Tomar banho  implicava em perder meu tempo lavando o que iria sujar de novo no pega-pega que me esperava lá na rua, com meus amigos. Houve vezes, até, que a gente apostava: o último a voltar do banho seria mulher do padre. Nunca fui –  por sorte, mas também pela minha agilidade toda.

 

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Minha fase suína levou algumas chuveiradas expressas até descobrir as propriedades terapêuticas de um banho bem tomado. Foi quando me dei conta que, enchendo o banheiro de vapor, fazendo desenhos com o dedo nos vidros embaçados, podia ser um pouco mais feliz todos os dias. Havia, afinal, coisas legais a se fazer nesses momentos que até então considerava um porre: bolhas de sabonete, realizar experiências químicas com o xampu e o condicionador da minha irmã, deitar no chão para sentir a água fazer cócegas na barriga, xixi no ralo. Banhos assim, de 10 minutos para mais, por muito tempo lavaram o meu corpo, recuperaram minha dignidade, tornaram-me uma pessoa melhor.

 

Hoje, talvez pior, mas não tem sido fácil superar a tentação de um banho quente em dias frios. Chego a encarar os registros do chuveiro, ouvindo o Cantareira derramar suas últimas gotas em mim, seus últimos suspiros de vida sendo mal aproveitados por alguém que não está se lavando, não está matando a sede. Estava só ali, desfrutando os jatos massageadores do chuveiro, olhando a água ir embora pelo ralo. Quando finalmente fecho as torneiras estou verdadeiramente feliz pelo banho, mas igualmente incomodado por ter demorado demais.

 

Tal como um bipolar, saio da euforia para a depressão profunda ao me ver abrindo mão das poucas alegrias que um trabalhador pode ter sete dias por semana. Os níveis do Cantareira viraram uma obsessão, a ponto de mentalmente eu regular banhos meus e de terceiros, calculando a parcela de culpa de cada um no agravamento da situação à espera de um pouco mais de proatividade.

 

A culpa bate sempre a minha porta todas as vezes que meus atos me levam à água. Passei a repensar em tudo, procurando alternativas, mas para muita coisa ainda não achei uma saída.

 

Já cortei a academia, pois ela me faria tomar mais banhos, beber mais água, sujar mais roupas, que seriam limpas com sabão em pó e água. Cortei a cerveja, porque me faria ir mais ao banheiro, dar mais descargas, gastar mais água.

 

Para os banhos, só há uma solução: a porquidão ou a morte. Do Cantareira primeiro. Depois de todos nós, se nos decidirmos não ser os porcos de ontem, os heróis de hoje.

 

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