arte: loro verz

 

»Um dia os amantes irão se reencontrar. 

Andaram brigando. A vizinhança inteira notou. Primeiro uns gestos indelicados, sem muita paciência, ainda que involuntariamente. Depois umas palavras ríspidas; frases cheias de arestas, cantos e farpas. Então as mãos se afastaram durante os passeios, no elevador, na praça, e logo não se olhavam mais,não se olhavam mais nos olhos, não se olhavam mais nos espelhos de casa.

Quanta coisa os amantes poderiam dizer se olhassem um nos olhos do outro. Quanto gelo derreteria aquele simples gesto excluído da rotina.

Escassearam os beijos, higienizaram o sexo, trocavam mais afazeres que afagos, mais atribuições que aconchegos.

Os vizinhos notaram brigas, desavenças, viram o casal separado, cada qual montado sobre uma placa de gelo à deriva, no ártico. Abraçados a pinguins e ursos polares, buscando um calor, um carinho, no ar no mar na pedra: tristes e cansados.

Mas o amor ainda estava lá. Ele mesmo, tolo e carente, igualzinho ao de sempre, ao que sempre fora, ele ainda era. Os vizinhos não notaram que lá dentro, no escuro, num labirinto de expectativas várias, decepções inevitáveis, mágoas exageradas, o coração tropicava.

Um dia os amantes irão se reencontrar. Seguirão de longe o zunido do coração já liberto de sua prisão rebuscada – libertos de expectativa, decepção e mágoa.

Quando os corações voltarem a ser corações, vão se reencontrar. E nem um dia terá se passado, nenhum passado terá presente, nenhum presente será maior do que aquilo que cabe no instante do olhar.

Um dia os amantes irão se reencontrar.

Eles vão dar as mãos como desde há muito não se davam, e apontar estrelas e construir abrigos que nunca tiveram, e confiar, depois de tudo passado, que o que está passado não tem mais importância, já não pode assombrar.

Um dia, num dia qualquer, sem muito esperar, os amantes irão se reencontrar. E o amor estará lá.«
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