» Meu primeiro contato direto (e irresistível) com a palavra terrorismo aconteceu no dia 11 de Setembro de 2001. Lembro precisamente de estar sozinho em meu quarto naquela manhã, com a TV ligada em desenhos animados e a atenção dispersa entre a tela, livros da faculdade e a necessidade premente de faxina, quando a vinheta perturbadora do plantão de notícias da TV Globo soou.

Naqueles tempos de internet precária, era através daquela vinheta que o corpo sintonizava a desgraça iminente. Era impossível ouví-la impassível, como quem atravessa incólume os gritos da cidade.

Mas desde antes do 11 de Setembro lembro de ter registrado profundamente, no próprio corpo, aquele som. Aconteceu numa certa manhã de 1994, voltando da feira livre, ainda com as sacolas cheias de verduras. Num dia que subitamente deixara de ser banal, morria Ayrton Senna.

A morte de Senna era contudo de uma estupidez tolerável. Era de uma violência trágica a que chamávamos destino. Um infeliz acaso. Uma fatalidade ceifava a vida do herói, mas uma fatalidade implícita naquele jogo. Todos já tivéramos notícias de acidentes com carros – às vezes, em nossas próprias famílias. O inominável ocasionalmente ocorria. Deus chamava mais um para o seu lado.

No meu segundo plantão inesquecível, o horror era de outra sorte. O terrorismo, mesmo que dos livros de história eu soubesse o nome, debutava no século 21 em sua roupagem mais brutal, mais indiscriminada e massiva, para ajudar a defini-lo para sempre.

O horror do terror, ao contrário da fatalidade que levou Senna e tantos outros, dói mais porque se afasta dessa força incontornável que chamamos de Deus ou destino. Os terroristas de Paris surpreendem até Deus, provocando também Seu desprezo. 

Eis que o terror moderno simultaneamente evoca e trai Deus: vem com carta de motivação, reivindicações, assunção de autoria. Vem com papel timbrado, logotipo de grupo terrorista, blog, face e vídeo. Vem com convocação às armas e manual de instruções. Vem mundano e politizado, seduzindo os relativistas mais incautos.

Essa é a dimensão mais temível do terror que se abate sobre o século 21. Não faz da morte fatalidade. Não do modo como entendemos a fatalidade, ao menos: muito trágica e algo divina, imersa em mistérios. Não é possível conciliar a noção de (inexplicável) destino a uma série de atentados planejados meticulosamente. Mortes antecipadas, sem mistério, sem divino. Mortes planejadas de vítimas inocentes.

Os assassinos e sua política do terror falam em Deus, mas privam Deus de sua ação misteriosa e incompreensível – torta por linha retas – ao justificar e politizar o injustificável. Privam ainda as vítimas (todos nós) do consolo de um obscuro desígnio para tudo aquilo.

Sabemos dos argumentos por trás dos ataques, que existem, e da tentativa de racionalizá-los, torná-los algo justificáveis. Como nos campos de Auschwitz, o terror obedece a uma lógica enferma.

Reconhecemos a lógica melhor do que reconhecemos os fios do acaso. É isso o que mais revolta.

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