arte: loro verz

» Generosa mãe natureza ou inferno verde. Bom selvagem ou bárbaro primitivo. A cada 50 ou 100 anos as sociedades parecem definir como se dará sua relação com a natureza. Ora inimiga, com ricos prêmios por sua conquista, ora aliada, amiga que deve ser bem tratada. Ora paraíso idílico das virgens com lábios de mel, ora antro de ameaças peçonhentas. A relação do ser humano com o mundo natural – e seus mistérios ainda mais indecifráveis que a meteorologia – é de ancestrais contradições.

Hoje, natureza e cultura travam uma ruidosa batalha no campo minado da sexualidade. De um lado, os que bradam que os gêneros masculino e feminino são definidos pela natureza. A natureza faz o corpo do homem e da mulher diferentes, com características sexuais primárias – órgãos sexuais, mamas – e secundárias, como timbre de voz, pêlos etc., para nos distinguir em dois sexos. Então a (sábia? cruel?) natureza exige que homem e mulher se unam para procriar, assim definindo a sexualidade “natural”. Homem + mulher = filhos. Sem filhos, sem espécie humana.

Mas o mundo, como disse Riobaldo, é muito misturado. Nele não se separam, como queria o jagunço, o bom do ruim, o preto do branco, o feio do bonito, o alegre do triste. Como se separariam, então, os homens das mulheres – o ser homem, sentir-se homem, e o ser mulher, sentir-se mulher – apenas pelos caprichos misteriosos do surgimento de pêlos e pênis?

O argumento cego do capricho da natureza, ou divino, perde força diante de nossas vidas tão misturadas. Como sustentar, num mundo em que as taxas de natalidade caem, em que indivíduos não querem formar casais, em que fetos são gerados em laboratórios, em que nos sentimos mais e mais no controle absoluto e individual de nossas vidas, que seres humanos com características primárias femininas devem desejar seres humanos de características primárias masculinas, e vice-versa, para dar necessário seguimento à espécie?

A natureza humana sempre desafiou a natureza – e se, no campo da sexualidade, desafiarmos também o que nos diz a forma, mas não o desejo? Assim entram em cena os defensores da visão oposta: antinatureza, contranatural. Não somos definidos pelo inferno verde em que nascemos, dizem eles, mas pela cultura em que somos criados e em que nos criamos. Sexualidade e gênero são campos abertos de nossas personalidades que preenchemos conforme absorvemos elementos do mundo ao redor.

Nada, portanto, estaria dado. Toda a história da sexualidade humana seria uma fábula, uma farsa com fins didáticos ou repressores – ou ambas as coisas, que terminariam desembocando na mesma falácia. Como disse a filósofa, nos tornamos mulheres – ou homens. Não nascemos nada; talvez nem humanos nasçamos. Sob a cultura, sob a ação do tempo e do espaço, da história e da geografia, da psicologia e da antropologia, nos tornamos algo. Homens, mulheres, transgêneros; heterossexuais, homossexuais, bissexuais e o que mais quisermos, pudermos ou nos dispusermos a ser.

O argumento que refuta a natureza, contudo, também não prospera. A verdade, como sempre, há de estar em algum ponto entre a negação e a aceitação canhestra do dogma da vez. Há muito de natureza em nós. Bilhões de genes interagindo de maneiras insuspeitas, gerando toda sorte de predileção, predisposição, premência. Graças à genética abolimos expressões como opção sexual, como se tomássemos decisões conscientes a esse respeito, e até homossexualismo, cujo sufixo lembra mais uma doença, física ou mental, do que uma vida.

Mas respiramos cultura como o ar, a todo instante, desde o primeiro grito. A natureza, ou a genética, contam uma parte da história, e então dá aos seres humanos a responsabilidade de viverem suas vidas – e, inclusive, de criarem novos seres humanos como lhes aprouver. Onde, então, está a verdade? Somos natureza ou cultura?

Quem saberá? Viver é muito complexo. E o mundo, pujante, escapa a qualquer definição. Cada vez mais misturado. Cada vez mais Riobaldo, no fim.

Cada vez mais Diadorim. «

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