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arte: loro verz

A vida é uma sucessão de sacrifícios – e, nos intervalos, gozo ou sossego. Alguns sacrifícios são precisos, outros, por vagos demais, têm pouca serventia. Alguns sacrifícios são tão grandes que nos levam ao chão, ou abaixo. Outros, de tão mecânicos, tornam-se rapidamente imperceptíveis. Sacrificar-se pode ser beber um copo d’água sem gelo, ou, quem sabe, ter água nenhuma. Pode ser partir, pode ser ficar.

A vida é uma sucessão de sacrifícios; o resto, interstícios.

Ninguém nunca saberá valorizar um sacrifício alheio, ocupado demais com os próprios. Não espere, portanto, abrigo. Um sacrifício é um iceberg tateando o oceano. Há uma dimensão totalmente subjetiva e incalculável no sacrifício, e ela é invariavelmente maior do que o que veem o pedestre, o motorista, o príncipe e o imperador. Não há fita métrica para um sacrifício, nem base de comparação.

Talvez seja isso que configure a vida adulta. As crianças não se sacrificam. Não voluntariamente. Quando o fazem, enfim “amadurecem”, isto é, tornam-se um pouquinho mais autoconscientes do mundo ao seu redor, e descobrem que ele não se encerra em si mesmas – não se encerra em nada, nem na vista nem em nenhum sentido imaginável.

É claro que existem crianças de várias idades, e mais claro que isso não é provavelmente um estado desejável. Ser imune ao chamado do sacrifício.

Nem todos os sacrifícios são bons, contudo, e talvez seja recomendável preservar em si uma porção meio boba, meio infantil, para mensurar o próprio ridículo. Os sacrifícios inúteis não preenchem os livros infantis ou as elegias de glória. Não estão nos mitos nem nas orações, mas existem aos montes ao nosso redor. Desnecessários, ridículos.

Às vezes vêm de um tipo de vaidade. Para exibir – aos outros, a nós mesmos – a nossa grandeza, a nossa boa tenência, altivez e nobreza. Ostentar ao mundo quantos quilos podemos carregar sobre as costas (quase) impunemente. Gostamos também de ostentar nossa corcunda de pontificado, nossa coleção interminável de sacrifícios pelo bem de ninguém. E ninguém se importa.

Um sacrifício pode ser apenas isso também, vaidade. Um concurso de beatos, uma galeria de príncipes medindo suas ilusórias espadas. Um torneio, é claro, de egos, de almas que se querem iluminadas.

E mais nada.

Mas qual a medida?

Sacrifício algum é sacrifício demais. Sacrifício demais é sacrifício algum. «

 

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