arte: loro verz

»O que o sono tem a ver com a noite? Todos os domingos a mesma encenação: reviso as aulas da semana, vejo um pouco de televisão, bebo dois dedos de uísque e me deito com o mesmo livro de sempre, sempre na mesma página. Pronto para a segunda-feira.

Mas todos os domingos a segunda hesita. Quanto mais se aproxima, mais vacila. Simplesmente não tem pressa de começar. Assim o domingo se estica até muito depois da meia-noite. Passa-não-passa. A semana inteira eu sei: será insônia, outra vez. Obrigo-me a dormir sem o querer. Obrigo-me, é assim. Os deuses, é claro, riem.

Já durmo pouco, em geral (e cada vez menos). De domingo para segunda, contudo, chego ao limite do tolerável: duas, três horas sob a turbulência de estranhos pesadelos. Noite passada corri seminu por uma floresta, fugindo de caçadores mitológicos. Na semana anterior, era um avião que afundava no oceano. A visita dos fantasmas.

Então me pergunto: o que tem o sono a ver com a noite? Descanso melhor de dia. Encosto-me em qualquer canto, especialmente depois do almoço (não importa quanto café beba) e adormeço. Houve um tempo, quando me dividia entre três empregos – duas universidades e um jornal, das sete às onze da noite, diariamente – em que aproveitava o horário de almoço para cochilar. Recostava-me dentro do carro, ali parado na praça Buenos Aires, e apagava do meio-dia às treze. Era exaustivo.

De início até me preocupava com questões de segurança e de, digamos, reputação. O que pensariam de mim, os estranhos? E se alunos me vissem naquele estado? A natureza, contudo, impunha-se à cultura: era preciso dormir. Com o tempo, aprendi a não ligar, aprendi a desligar – as lições do corpo costumam ser as melhores. O cochilo breve revigorava. Era feliz.

Quando enfim chegava a noite, por mais exausto que estivesse, curiosamente demorava a dormir. Naqueles dias, estava às voltas com a literatura. Aproveitava para escrever pedaços de contos, romances (e fui até publicado). Pensava: quem disse que a noite é feita para dormir?

Quanto mais escura a noite, mais as estrelas brilham. Às vezes botava o cachorro na coleira e descia para caminhar. Acendia um cigarro, em memória do meu pai, em saudação ao Moisés Machinsky, ao Márcio Freitas, a todos os bons boêmios amigos, e andava pela noite escura com um farol incandescente nas mãos, cintilando por entre as almas perdidas da Pompéia.

Eu sempre tive a impressão de que a noite foi feita para navegar. Navegar pela cidade como um farol flutuante, desprendido do continente. Navegar pela internet, que seja, ou navegar pelos próprios pensamentos como um cosmonauta sobressaltado. Navegar com a ajuda das estrelas.

De dia é tão fácil se perder!«

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