arte: loro verz

»Vou ao cinema regularmente. Nem lembro quando o hábito se enraizou em mim em definitivo. Os primeiros filmes na sala escura, lamento dizer, não foram clássicos românticos atemporais que fisgaram o poeta adormecido. Pelo contrário: eram banalidades do nível de um “He-Man”, alguma coisa dos Trapalhões, alguma coisa da Xuxa.

O primeiro filme a me impressionar pelo filme em si foi o “Batman” do Tim Burton, de 1989, especialmente pela atuação do Jack Nicholson no papel do Coringa. Toda aquela maquiagem estranha e a perversidade divertida do personagem eram fascinantes para uma criança. Aliás, talvez o próprio Coringa seja a encarnação da perversidade das crianças, mas isso é outra história.

A partir dali, daquele “Batman” a que assisti sozinho, num meio de tarde tedioso, o cinema me fisgou em definitivo. A magia da sala escura em que tudo poderia acontecer se somava, enfim, a um bom filme. Naquela sala, então tive certeza, poderíamos dar um tempo na monotonia do cotidiano e embarcar no mistério absoluto.

Passei a sonhar com filmes, cenas de filmes, pedaços de diálogos, remendos de locações, constantemente. O cinema estava em mim dentro e fora das salas.

Desde há muito tenho frequentado o cinema uma vez por semana. É a minha igreja. Um ritual meditativo em que repasso a vida como ela é, como ela poderia ser e como ela nunca será. Aprendi uma porção de coisas nesse evangelho. Aprendi sobre corpos, sobre paixões, sobre desesperos, sobre ambições que só muito mais tarde vim a conhecer.

Mas nos últimos anos minha igreja vem sendo terrivelmente profanada. Não falo dos filmes ruins, porque os filmes ruins também os amo. Se não vejo mais “He-Man” ou Xuxa na tela grande, continuo vendo encenações de qualidade duvidosa, às vezes até inferior. Nem só de cults iranianos se fazem meus cultos. Aceito, efetivamente, quase tudo. Mantenho a dieta variada – se não no prato, ao menos na película.

Só uma coisa me irrita, no cinema. Não são os filmes ruins. São os fiéis infiéis, fiéis desrespeitosos, ignorantes chatos. Os falsos crentes que falam demasiadamente durante o filme, que legendam a ação que dispensa legendas: “Olha lá, ela vai pegar a faca, meu Deus”. Os comentaristas de ficção, os entediados com o celular ofuscante na mão, os mastigadores de milho que interrompem o segundo de silêncio absoluto de uma cena com sua compulsão mandibular. Os amassadores de saquinhos, de plastiquinhos, de sacolinhas. Os profanadores de cenas, fazendo cena. (Há que se cultivar uma certa delicadeza, uma certa sutileza, até para comer pipoca.)

Nessas ocasiões, ajeito-me na poltrona. Suspiro fundo, alto, com a esperança que me ouça. Não o vizinho barulhento: esse não tem jeito. Mas, quem sabe, o Deus do Cinema, o Senhor das Telas, o ser que habita na luz dos projetores. Que me ouça e saiba, ao menos, que estou do seu lado. Atento e calado.«

 

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