arte: loro verz

Não sou muito bom em trabalhos manuais. Desde pequeno, recortar uma folha de papel em linha reta é um desafio. Não consigo nem sequer desenhar um círculo, pinto para fora do quadro, enrolo brigadeiros em formas que desafiam a geometria.

Ando redecorando a casa, cansado dos móveis herdados de outras vidas, encharcados de histórias que não são as minhas. Pendurei seis porta-retratos na parede há uns dias e todos caíram depois de horas. Todos eles. Metade quebrou, metade eu salvei com supercola. Colei, obviamente, sem saber alinhar arestas. Minha cabeça pensa incessantemente em todas as coisas: imagina, planeja, diagrama. As mãos, no entanto, me traem. Tremem.

Sou um terror em trabalhos manuais.

No fim de semana, depois de meses com um novo varal e novas persianas encostados na parede, rendi-me à minha incompetência e chamei um marido de aluguel. É o nome de um serviço de “especialistas em pequenos reparos”, e é também o nome do meu fracasso. Preciso de um marido de aluguel para pendurar as persianas. (Trocar lâmpadas ainda sei.) Expliquei, constrangido, o serviço ao meu marido provisório. Instalar o varal. Você tem furadeira, ele perguntou. Eu não tenho. Nem saberia usar. A convenção de Genebra me proíbe de ter furadeiras, serras e até canivetes em casa – brinquei, mas ele deu de ombros. Também não tenho chave de fenda e não faço idéia do que seja uma philips. Disfarçou o riso.

Já no fim do serviço, pergunta-me: o que o senhor faz? Arrisquei, para ver a sua reação: eu sou poeta. Eu sou poeta e não sei fazer nada disso direito. Na minha casa antiga, quando ainda nutria orgulhos manuais, instalei a torneira da cozinha. Vazou por semanas, até que, rendido, chamei um encanador. Foi a mesma coisa com tomadas, chuveiros, azulejos: tudo sempre meio torto, meio capenga. Até fixar um prego na parede é um desafio. Ele entorta, o quadro entorta, eu entorto.

Sofri anos por isso, mas hoje aceito. Eu escrevo. Quando mais novo, escrevia cartas de amor sob encomenda. Os amigos tentavam descrever o que sentiam, relatavam pequenos eventos, memórias, percepções, e eu colocava tudo aquilo no papel e do papel para as mãos da mulher amada. Batata.

Fiz meus bicos de cupido, mas nunca acertei um prego. Porém a gente amadurece, e recentemente lancei-me a um novo desafio. Pintei as paredes de casa. Não ficaram perfeitas, mas estão apresentáveis, o que já é um avanço para mim. Eu não sei como seriam os poemas do meu marido de aluguel, mas suponho que também teriam pés quebrados. Então tudo bem, consola-me. Ninguém é perfeito.

Mas o que é melhor: escrever poemas ou pintar paredes? Vou na contramão da alta filosofia. Toda a filosofia do mundo, às vezes, afoga-se num copo de pinga. Todos os dias sento no sofá e admiro a minha parede. Admiro também a mesa que montei e apoiei naquela mesma parede. Está sólida, limpa, retilínea.

Vou na contramão da filosofia porque todos os grandes pensadores decretaram a supremacia dos prazeres intelectuais sobre os prazeres físicos ou materiais. Stuart Mill disse que era preferível ser um homem insatisfeito do que um porco satisfeito, e que também seria preferível ser Sócrates insatisfeito do que um imbecil satisfeito. Aristóteles diz ao seu filho, Nicômaco, que os que perseguem o prazer físico vivem como seres inferiores. São ruminantes: vacas movidas por gozo e dor.

Mas eu, que não sou grande, e mal e mal sou pensador – prefiro poeta, porque poeta pode ser um estado de espírito que prescinda de tudo, até de poemas – não sei se os prazeres intelectuais de toda uma vida superam esta parede tão bem pintada (para os meus padrões, é claro). Esta parede que todos os dias vejo e toco, aliso e cheiro. A mesa em que faço minhas refeições, em que escrevo este texto – a mesa que sobreviverá às reflexões e aos textos.

O corpo delgado sobre a cama, que treme ao toque, ou quarenta páginas de filosofia?

Mas quero tudo, e melhor seria se fôssemos um só: o marido de aluguel, especialista em reparos físicos, e eu, especialista em suspiros e inutensílios poéticos. Mas não somos: o ser humano sempre é faltante, e a mim me faltam tantas coisas que há dias em que não sei por onde começar a arquitetura do meu eu. Se começo por Drummond ou se me dedico à marcenaria.

Mas então vejo a parede, a tinta lisa e uniforme. Um dia inteiro de suor e tendinites. A parede, que escora a minha filosofia. O senhor me mostra um poema?, pergunta enfim o pedreiro, limpando o suor da testa. Eu lhe estendo um poema. Ele, exausto, suspira. Cada azulejo tem a sua poesia. 

 

______________________________________________

*Siga Males Crônicos no Facebook.

(Não esqueça de clicar em “obter notificações” na página)

Atualizações todas as segundas-feiras.

Twitter do autor: http://twitter.com/essenfelder

______________________________________________