arte: loro verz

»A criança aponta a borboleta:

– Mãe, olha a coisa, olha!

Imediatamente explode num maravilhamento bonito. Rodopia e bate os braços como se fossem asas. Por um segundo, é ela a própria coisa, e como a coisa, sai voando por aí.

Mas eu tenho os pés enraizados no chão. Sei que a coisa se chama borboleta. Sei que é um inseto da ordem Lepidoptera (mesmo sem o Google eu sei). Lembro que me contaram da diferença entre mariposa e borboleta, quando eu também era criança.

Na vida, vi vários tipos de borboletas, de vários tamanhos e cores. Já passei por alguns museus com grandes quadros de vidro repletos de borboletas espetadas no alfinete. Achava mórbido, embora pedagógico.

O conhecimento pode ser uma coisa meio mórbida. Aliás, quase sempre o é. Uma borboleta espetada num feltro vermelho. Se me aparecesse por entre as árvores, sorrateiro e balbuciante, o deus das borboletas, eu diria: eu sei quem você é, um inseto da ordem Lepidoptera.

O conhecimento é uma coisa maravilhosa. Como professor, tive uma vida inteira de instrução. Estudei não as borboletas, mas a poesia anglo-americana, a prosa do jornalismo, os mistérios da inflação.

Fui enchendo as estantes de livros. Como borboletas, afixei sobre eles alfinetes coloridos: literatura, cinema, linguística, filosofia, economia. Hoje, quando ocorre o fenômeno – digamos, o deslumbramento do menino – logo o classifico, enumero e defino. Humanos e Lepidopteras.

E mesmo assim, tão instruído, eu choro quando vejo o menino. Invejo o menino. No fundo queria saber menos, ter menos diplomas, menos pretensões. Dentro de mim, dou as mãos ao menino.

O conhecimento é uma coisa maravilhosa, mas não é nenhuma… borboleta.«

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