arte: loro verz

»Houvesse um Victor Hugo entre nós, nascido a plena geração internet, sua obra-prima não seria “Os Miseráveis”.  Os miseráveis ainda existem, é claro, e seguem nas ruas, sofrendo de fome, de injustiça e de esquecimento. Mas não são mais os miseráveis o retrato do nosso tempo.

A obra-prima do século 21 se chamaria, talvez, “os ressentidos”.

Não seria necessária grande pesquisa antropológica para escrever a história dos ressentidos. Não seria preciso nem mesmo sair de casa. Os ressentidos vêm até nós, hoje em dia, pelas redes sociais, mensagens de celular, aplicativos de fofoca. Se não vêm em palavra, vêm na vibração típica dos ressentidos: uma onda de negatividade esverdeada que desidrata qualquer humor.

O ressentido é um profundo insatisfeito com a própria vida, mas incapaz de mudá-la. Não sente a insatisfação de todos nós, que gostaríamos de ser mais e melhores. Sente é raiva do mundo (injusto) e de si próprio (infeliz). Raiva cega e paralisante que logo evolui para um desprezo por si próprio, cuja sombra se projeta sobre o mundo inteiro, em um eclipse permanente da luz solar.

O ressentido diz ser o único lúcido da sala, um realista, mas na verdade odeia a si próprio e sobretudo a covardia que o incapacita a mudar. Como a ojeriza não cabe em si, ele a derrama sobre tudo.

O ressentido despreza a felicidade dos outros, cospe no sucesso, mancha a beleza, zomba da juventude… Despreza até mesmo a saúde, a família e os amigos: tudo o que é banhado por alguma luz.

Quem não pode criar beleza, quer destrui-la. Quem não pode amar, odeia. Quem não tem sucesso, torce pelo fracasso. Dos outros.   

As redes sociais são cheias de ressentidos, muito mais do que de miseráveis. O ressentimento nunca esteve tão na moda. É facilmente confundido com o sarcasmo, com a ironia fina e inteligente, e frequentemente recebe aplausos – o que incentiva mais ressentimento. Ser ressentido é cool.

Pior: os que se ofendem da felicidade alheia apoiam uns aos outros, andam em bandos, entendem-se entre si. Um comentário ressentido tem público garantido. O elogio sincero, quase nunca. É bacana ser babaca.

Qual o remédio? Um tango argentino? A poesia? O tempo. Jean Valjean, o miserável clássico, no fim da vida vence o rancor das injustiças sofridas, perdoa e é perdoado. Acho que o mesmo se dá com o ressentido, que quando jovem gosta de odiar, mas no fim da vida presta mais atenção a si próprio, importa-se menos com todas as coisas que lhe eram tão caras e decide, enfim, cuidar da própria vida. O ressentimento acaba, enfim.

Mas, até lá, a vida já passou.«

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