arte: loro verz

»A coisa está feia, ouço dizer.

Os amigos falam baixinho, quase envergonhados. Pela primeira vez, confidenciam, pensam em sair do país. Em definitivo.

Não é só a política, não é só a economia – que, por si sós, já seriam suficientes. São essas e outras: as barbaridades do dia a dia. É a violência das mãos que tocam e sufocam, a violência das armas e das caras encapuzadas, a violência de cidades sujas, tumultuadas, escuras, inacessíveis. A violência do demais, dos excessos, do barulho.
A coisa está feia. Por isso o mundo carece, com urgência, das coisas belas. Todos precisamos. Mas onde está a beleza?
Está em todos os lugares, como sugere o clichê? Ou nos olhos de quem a vê? Não. A beleza não está em toda parte – ao menos não a beleza de que realmente precisamos, o antídoto antientropia ultraconcentrado que nossas dores aliviaria.
Também não está no lugar mais óbvio: nas capas de revista. Então onde está a beleza?
Está por aí, é claro, mas não se exibe gratuitamente. A beleza anda discreta. A musa está disfarçada: veste um bigode falso e um chapéu de palha. A musa está disfarçada: usa óculos escuros e anda cabisbaixa.
Mas embora a beleza esteja por aí, talvez seja necessário sair em sua busca mais ativamente. Precisaremos agir com determinação contra a feiúra que se instala.
É preciso mudar o itinerário até o trabalho, incluir outros ingredientes à sopa da rotina. Temperar a vida com um toque de inesperado – quem espera, a beleza não alcança.
Vamos correr atrás da beleza, de ao menos uma beleza por dia, conforme ordem poética. A beleza de um rosto (ao vivo, de perto), a beleza de um corpo (ao vivo, de perto) ajudam, mas não bastam. Os pacientes estamos terminais. E a beleza, impaciente, logo desaparece. Vamos, às ruas, irmãos e irmãs, vamos à beleza.
Olhemos atentamente para a copa das árvores. Lembremos da primavera. Observemos, na ponta dos galhos, o vento. Os pássaros – a maioria, Deus nos perdoe, são feios, mas há os belos e os muito belos também, em algum lugar.
Atentemos à beleza de um som. Escutemos a beleza de um movimento perfeito: só isso, um movimento, um flexionar de músculo preciso, lapidado. Oremos a poesia. Oremos o cinema, a luz, um enquadramento fugaz em que se encerre um suspiro. O som surdo dos pés batendo no tablado, o som macio do tecido roçando a pele.
Não qualquer som, não qualquer filme, não qualquer animal. Não qualquer corpo, não qualquer rosto, não qualquer quadro. O belo.
Louvemos o belo. Louvemos todas as coisas belas – antes que desapareçam do mundo, e, sem compaixão, desapareçam de nós

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