arte: loro verz

»Há uns dois anos, numa praia de Florianópolis, um sujeito me olhava com curiosidade. 

Sou péssimo para guardar fisionomias e nomes, e trechos de livros ou filmes, e citações que me façam parecer inteligente, e letras de música, e cores, e sabores, e, especialmente, datas. O que me socorre razoavelmente bem é a rapidez de raciocínio. Pois: naquele dia não consegui lembrar se o jovem era meu conhecido, então formulei todas as hipóteses possíveis. Seria um aluno? ex-aluno? colega? amigo de amigo? parente distante? inimigo juramentado?

Veio em minha direção, sorrindo. Abreviou especulações. 

Apresentou-se, vejam só, como leitor fiel desta coluna. Um improvável “fã” de bermudão, passando, como eu, o verão na ilha. Não me surpreendesse o bastante, completou: admiro o seu sucesso.

Ri, constrangido. Volta e meia chegam mensagens de curiosos, em geral escritores em latência, com esse mesmo estranho substantivo: o sucesso. Rio, ainda, distraído. Se me falam sobre sucesso sei perfeitamente do que se trata, mas, se me perguntam precisamente o que é o sucesso, não sei responder.

Pois o sucesso que o leitor praiano via eu não via. Nunca vi, aliás, pessoa consciente do sucesso – talvez aconteça, sei lá, com Mick Jagger, Wesley Safadão. Gente que lotaria estádios. Ou Mark Zuckerberg, que, segundo soube, tem ganhado 11 milhões de reais por HORA desde março. É um sucesso.

Mas o sucesso de quem não lota estádios nem ganha dinheiro mais rapidamente do que consegue gastar é bem mais impalpável. Abstrato.

Insisto: nunca conheci, na minha vida privada, gente consciente do próprio sucesso. Minha mãe, que passou maus bocados e triunfou. Um escritor que conseguiu publicar um ótimo livro, ainda que pouco lido. Um menino pobre que se torna o melhor da classe. A mãe de dois filhos lindos. A desempregada que começa um negócio – e se vira. Um cara que publica crônicas num grande portal. Um policial honesto, que sobrevive a mais um dia.

Todos um sucesso, vistos assim, para mim. Mas, para eles próprios, ainda não. Infelizmente, para a sociedade, em maioria, também não. Obcecados por dinheiro e fama, deixamos apodrecer o que mais importa. Sucedem os abusos, filmados, para obter alguma fama. Sucedem os engodos, os golpes, o vale tudo pela grana. Parece que só tem sucesso quem é muito rico ou coleciona mais de um milhão de “amigos”. Às vezes, contudo, sucesso é o que você já tem, em si.

Outro dia minha filha me perguntou algo sobre sucesso. Demorei a responder. O mais difícil das coisas é simplificá-las. Pensei: o sucesso mora nos apesares. Apesares de idade, status, condição, desprezo, preconceito, tormenta, persistimos. Sucesso é ser feliz.«

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