arte: loro verz

» O cérebro é uma lente preguiçosa para olhar o mundo. Incessante arquivo de padrões, langorosa máquina de associações que estabelece, com ou contra a nossa vontade, perigosas metonímias.

Às vezes, as associações são de alguma valia (talvez até na maior parte do tempo). Outras, contudo, nos empurram na direção do abismo.

O filtro pelo qual olhamos o mundo é o filtro dos estereótipos. Há uma perversidade evolutiva nisso: o cérebro, para poupar energia, prefere pensar que todo animal não doméstico é perigoso, que todo fogo ameaça, que toda tempestade desabriga. São estereótipos ancestrais, que têm ajudado o homem a seguir sua jornada até o fim dos tempos. Assim, não é preciso examinar cada caso particularmente. Há uma regra geral por trás de tudo. Se não deu certo uma vez, nunca dará.

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O problema dos estereótipos se agrava no mundo moderno, cuja complexidade não cabe em nenhum esquema, palco, palavra. Sendo o estereótipo uma simplificação radical das situações com que nos defrontamos, e, sendo essas situações muito mais cinzentas e nuançadas do que o tudo ou nada da Idade da Pedra, como seguir em frente?

O mundo se ramifica em religiões, gêneros, direitos e conquistas; violências, fobias, artimanhas políticas. Como dar conta da realidade multifacetada e irredutível com que nos esfregamos dia a dia com essa lente distorcida?

Impossível.

Com cérebros programados para simplificar, como seremos justos? O terrorismo veste a túnica do Islã; o crime, a cor negra. Deus é brasileiro; país da doce malandragem, samba e Carnaval.

Marthina Brandt, brasileira, vence o Miss Brasil. A crítica não tarda: dizem que ela não representa a beleza brasileira. É loira de olhos verdes, ostenta um sobrenome incomum. Como conciliar loirice e brasilidade? Como incluir o Rio Grande do Sul neste país chamado Brasil?

O que é beleza brasileira?

As melhores intenções são também eivadas de preconceitos, de estereótipos. Pensar custa tempo, e as redes sociais perfazem mais uma máquina de roubar horas. Queremos opiniões prontas, que só podem vir rapidamente por meio do: estereótipo.

Afinal, o que é a beleza brasileira senão um grande estereótipo sambante, recém-saído da passarela? «

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