arte: loro verz

 

»Encontro, pelos corredores da vida, um grupo de ex-alunos. A primeira reação é sempre de um agradável afeto, o mesmo afeto de reencontrar um pedaço de si, no outro. Talvez lembrar seja sempre um exercício de reconhecimento de si próprio: enxergar, em um amor de infância, em um sabor perdido, em uma paisagem – ou num professor – um espelho de seus melhores dias.

Reencontramo-nos e logo percebemos que ninguém, nem eu nem eles, lembrava do nome da matéria em que nos frequentamos. No espelho dos melhores dias, eles não viam mais conteúdos elementares, datas (de que ano é a prensa de Gutenberg?), conceitos (o que é um nariz de cera), nomes (quem escreveu “Frank Sinatra está Resfriado?” e “As Religiões do Rio?”) e por aí vai, numa extensa lista de sujeitos e predicados.

Não é que não lembrem de nada, é claro, nem que a matéria tenha sido toda inútil. Longe disso, pois todos lembravam com carinho das antigas aulas – e lembrar com carinho já é muito melhor do que recitar a velha decoreba da tabela periódica.

Mas lembram de outras coisas. Lembram dos poemas e das histórias, lembram dos afetos.

– Professor, e os poemas?

– Professor, e a história do macaco?

Estou convicto de uma obviedade. As obviedades são, aliás, as verdades mais duras de reconhecer – estão tão coladas aos nossos narizes que se tornam invisíveis. Estou certo de que contar histórias, boas histórias, é o mais formidável meio para ensinar, ou aprender, qualquer coisa. Por isso, insista com as historinhas antes de dormir: do primeiro ao último mês de vida (até a morrer é preciso aprender).

Convenci-me de uma verdade de 32 mil anos de idade, ao menos. Da verdade da arte rupestre e dos grandes mitos que foram sendo passados de boca em boca, de geração em geração, até se fixarem em papel. A verdade de uma terrível Medéia, de um enlouquecido Édipo, de uma trágica Julieta.

A verdade das grandes histórias – ou mesmo das pequenas –, ao contrário da verdade dos conceitos estéreis, que não frutificam em histórias de som e fúria, permanece.

Acho que a boa pedagogia, a pedagogia que fica, passa pela arte de narrar e de compartilhar. Não as opiniões rasas, que logo saem de moda, mas as vivências mais impactantes de nossas próprias vidas e das incontáveis vidas que nos cerca e precederam. A vida é sobre isso: a vida. E só se vive por meio de histórias.

Os gregos sabiam disso, os trovadores sabiam disso, os irmãos Grimm sabiam, Shakespeare sabia, e Machado, e Clarice… É uma pena que nós estejamos ocupados demais para saber; ocupados demais para aprender a viver.«

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