arte: loro verz

 

»Às vezes, inadvertidamente e sem aviso, derivo. E tem acontecido cada vez mais. Enquanto o corpo presente assiste à missa das reuniões, discussões, deliberações e julgamentos, o coração sai à francesa, como uma criança que se entedia na festa de família.

Tudo bem, entediar-se é bom. Ao contrário do que sempre ouvi, que o tédio é veneno, que a cabeça vazia é a oficina do Diabo, que o tédio leva à destruição de tudo, eu aprecio o tédio. Tive de aprender a apreciá-lo, já que sua visita era inevitável. Hoje, somos amigos.

O tédio me dá as mãos no meio do dia, às vezes, e me leva para passear. Juntos, rimos de tudo – e, à medida que brincamos, ele se transforma em uma aguda consciência da vida. O tédio não é o oposto da diversão, pelo contrário: é seu arauto e irmão. Antes de ser desvio, é o caminho mais óbvio para o divertimento, é a força que nos expele de mais uma reunião sem propósito nem sentido, de mais uma tarde diante da TV.

O tédio aponta para os rostos engravatados, compenetrados, e pergunta: por que isso? Pra que tanta seriedade nesses prazos, nessas metas, nesses lucros desnecessários? Será que não sabem que logo estarão todos mortos, que a vida é um sopro?

A mente, até então nublada pela lógica utilitária, tenta lutar de volta. Diz que isso é importante para o crescimento, para o faturamento, para o prestígio. Aos poucos, contudo, capitula. É difícil argumentar contra uma criança que apenas gargalha. É como gritar “não ria, isto é sério”, diante da euforia de uma criança ao ver cocô de passarinho recém-caído em nós. Enquanto a gente fica puto, ela ri. Enquanto tentamos discutir, ela ri. Enquanto sentimos vergonha, ela ri.

Pois: vamos rir também. Frequentemente fico impressionado com o tanto que as pessoas levam tudo muito a sério – como se a vida fosse uma estrada em direção a alguma coisa que só pudesse ser atingida com muito comprometimento-dedicação-zelo-sacrifício-suor-lágrimas e sobretudo se-ri-e-da-de.

Nem tão tarde, descobri que é melhor dedicar todo esse esforço a não se esforçar muito: a viver mais levemente, a rir do cocô do passarinho.

A vida não é séria. A vida não leva a lugar nenhum – senão à morte. A morte do terno, a morte do passarinho, a morte sua e até do menino. 

Relaxe e curta a passagem.«

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