arte: loro verz

»Ainda menino, minha mãe me levou para um campeonato de xadrez na Biblioteca Pública do Paraná. Eu, talvez pelos óculos, talvez pelo silêncio ou pela companhia dos livros, parecia um candidato perfeito à virtuose enxadrista. Sentei diante de um menino igualmente virgem, igualmente míope, em uma ampla sala com três dezenas de meninos e meninas míopes e acneicos, e ele moveu uma peça. Movi outra. Moveu a sua. Tomei um xeque-mate. Dois movimentos. Em dois movimentos, menos de dois minutos, o jogo estava encerrado.

Foi tão rápido que não nos atentamos para o fato de que o campeonato nem havia começado. O árbitro passou na mesa, olhou as peças desarrumadas e riu. – O torneio não começou. Recoloquem as peças e podem começar agora.

Recomeçamos e tomei nova surra. Talvez não em dois movimentos, mas em não mais de sete capitulei. Aprendi duas coisas: o menino era muito bom, havia gente muito boa e muito melhor do que eu no mundo. E eu era um inconsequente.

Percebi enfim que eu não era talentoso na arte de traçar cenários e projetar mundos possíveis. Eu fazia o meu melhor e torcia para ser o suficiente. Era um menino responsável, sempre o fui, no sentido de assumir responsabilidades. Mas era um inconsequente, pois não sabia medir consequências, não sabia pensar dois passos à frente.

Os amigos até hoje me pedem conselhos sem saber como sou inconsequente – e como se arriscam! Não entendem como é diferente ser responsável, ou seja, se responsabilizar pelas próprias catástrofes, e ser realmente ponderado, capaz de ganhar um jogo de xadrez em poucos minutos.

Na vida, não posso dizer que fiz o que queria nem que faço o que quero, mas faço aquilo que acho que é melhor para o momento e torço para que tudo dê certo, sem muitos cálculos. No futuro, não existo. Não consigo concebê-lo. Há 20 anos eu jamais diria que me tornaria o que me tornei. Sou fruto de acasos, como aliás acho que todos são. Nunca vi, pois, sentido no cálculo das probabilidades. “Sou de humanas”, como repetíamos todos os estudantes de jornalismo.

De certa forma é bom: não desisto de nada por cálculo racional: só o faço por frio na barriga, por puro pavor. Tudo bem. As consequências de desistir podem ser piores do que as de fracassar. Em geral, são. As duras consequências de não fazer nada.«

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