arte: loro verz

O Brasil adoece; ou eu. Às vezes passo dias sem ler o noticiário. Os jornais poderiam, eventualmente, vir com um alerta do Ministério da Saúde. Notícia demais deprime. É que as notícias não são boas nestes tempos bicudos e, entre um copo e outro de volume morto, entre uma enxaqueca e outra provocada pela poluição paulistana, esmoreço. Como não esmorecer?

Durante o almoço, os amigos, taciturnos, fraquejam em suas esperanças. Drummond, em algum lugar, talvez chore; reescreve-se. Sonha ser raptado por serafins para uma ilha distante. Drummond sonha com Pasárgada, enquanto Bandeira acena do além. Augusto dos Anjos já sabia.

O Brasil adoece. Ou sou eu? Os amigos durante o almoço vêm e vão em seus planos de emigração. Um fala de Canadá, outro, de Reino Unido, outro, de Estados Unidos, outro, de qualquer canto menos brutal. Falam de cercas na Cracolândia, falam propinas, caixinhas, SUS e muito, muito lixo nas ruas.

Sempre fomos otimistas, mas, diante dos jornais, fraquejamos. É Copa, é eleição, é inflação, é brutalidade.

Alguém fala da “juventude desviada”. Protesto: somos também jovens. Por que só os jovens dos outros têm de fazer algo? Em cada tempo do mundo um punhado de velhos decretou a decadência da juventude emergente. E, depois, morreu.

Mas outro professor confessa: em dez anos de docência, nunca vi aluno querendo ser vereador, deputado, senador, prefeito, governador, presidente. Fica combinado que as coisas ficam como estão, e em cem anos os bisnetos dos mesmos caras estarão fazendo as mesmas coisas de sempre. Meu amigo tem razão. Nunca conheci um só candidato a nada – e conheço tanta gente boa. Esmoreço.

Agora os meus amigos fazem as malas, mas eu fico. Lembro da cena de “Matrix” em que Morpheus oferece ao jovem Neo duas pílulas: a azul, do autoengano, que o reconduziria à sua vida prosaica, e a vermelha, da amarga verdade. Mas o que é verdade e o que é autoengano no Brasil? Não sei mais. Nem dez matrix’es inteiras decifram um PMDB.

Emigrar resolve? Aumentaria a sua felicidade? Pode ser que sim. O autoengano pode ser fugir, mas também pode ser ficar, e é por isso que as escolhas são difíceis mesmo para os poucos que têm condições materiais de fazê-las.

A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e de fúria, sem sentido algum. Homens de todas as épocas reclamaram de seu tempo, queixaram-se de que o sentido da vida se esfacelava. O sentido, que nunca existiu – nem aqui nem nos Estados Unidos. O Brasil, afinal, o que é o Brasil, senão nós? Eu e você, a construção que imaginamos de Brasil. Viajamos para longe para fugir do que está em nós, este nosso corpo encharcado de Brasil. Ir parece mais fácil do que transformar. A nós mesmos.

Suponha que a pílula azul lhe oferecesse uma vida inteira de prazer: você a tomaria? O filósofo Robert Nozick propôs ideia parecida: se inventassem uma “máquina de experiência”, capaz de produzir experiências prazerosas incessantemente, você se conectaria a ela ou preferiria viver neste mundo bruto, de altos e baixos, de nascimentos e funerais, amores e ex-amores, expectativas e decepções?

O filósofo supõe que preferiríamos a vida como ela é, desconcertante como ela é. A verdade.

Mas eu leio o jornal e penso, e penso demais: será o Brasil uma máquina de experiência às avessas, defeituosa, que num loop virulento nos conecta ao mais arcaico e brutal de nós? Onde desliga? Nunca quis morar fora, minha pátria é o português brasileiro e não me imagino no corpo de outro idioma. Mas, hoje, não sei. O horizonte é nebuloso – a poluição paulistana se alastra para dentro de mim.

Os idiotas vão dominar o mundo por uma simples questão de superioridade numérica, vaticinou Nelson Rodrigues. Me confundo nos tempos verbais. Dominam, dominarão ou dominaram? Júlio César disse: Veni, vidi, vici (Vim, vi, venci). Era o imperador supremo.

Mas a nós, que não somos césares, o que resta?

O Brasil adoece; ou sou eu?

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