arte: loro verz

Outro dia, zapeando pelos 117 canais da TV, trombei com o diabólico Al Pacino pregando numa cena de “O Advogado do Diabo”. Interpretando o próprio tinhoso, enumerava as fanfarronices de um Deus que lixa as unhas sobre a criação enquanto ele, o Diabo, seria o verdadeiro entusiasta do Homem, das contradições, dos instintos, das paixões humanas. Em seguida, em um encerramento memorável, confidencia: a vaidade é o seu pecado favorito.

Al Pacino é um dos poucos atores que me fazem parar qualquer coisa para vê-lo. Uma de suas cenas para mim representa perfeitamente o relâmpago que se abate sobre nós quando a paixão é paixão: o primeiro encontro de Michael Corleone e Apollonia Vitelli em “O Poderoso Chefão”. Quem já perdeu assim o fôlego, como se o impacto de um olhar esvaziasse pulmões e ideias? À primeira vista é paixão – o amor vem logo depois, para quem sobrevive ao afogamento e lembra de respirar (e, principalmente, deixar respirar).

Também tenho meus pecados, vaidades e paixões. Quem conhece as próprias vaidades conhece a si. E quem domina a si próprio não precisa realmente de mais nada, ensinou-me um mestre.

A minha vaidade é cultivar expectativas. Pelas minhas expectativas, o diabo gargalha. Saliva.

Tenho-as como erva daninha em todos os cantos da minha casa. Sob as unhas, acumulando pó, ou estampadas no meu rosto, na forma de linhas, pelos, rugas, espinhas. Expectativas. Do tipo mais cruel cultivo em cantos esquecidos, num redemoinho entre os cabelos, sob a cicatriz do queixo, na cavidade torácica. Lá se aninham, simbióticas, as minhas piores expectativas.

[Não de que as coisas melhorem de modo genérico e tranquilizador, não de que amanhã o sol apareça.] São expectativas sobre pessoas.

Minha vaidade é nutrir, de modo inconsciente, inconsequente, expectativas sobre os outros. Esperar que sejam o que não são – ou, que seja, que sejam qualquer coisa excepcional. Muito mais do que mero conjunto de expectativas.

Mas as pessoas são o que são e, se nos decepcionamos com certa frequência com elas, a culpa é somente das nossas expectativas. A vaidade maior – pecado maior, portanto – é achar que a convivência comigo possa mudar alguém. Presumivelmente, para “melhor”.

Tenho um pug sobre o qual não nutro grandes expectativas. Espero, apenas, que esteja com saúde. Tendo saúde, sei que às vezes irá pular no meu colo e lamber o meu rosto até que eu precise de uma chuveirada, sei que às vezes preferirá me olhar de longe, de sua cama, perdido em sua própria filosofia. Da parte dele, tenho certeza de que não espera muito mais do que ração duas vezes ao dia e um passeio na rua – eventualmente afagos, ossinhos, uns minutos sobre a minha cama e um dedo de prosa sem sentido.

Talvez seja essa a diferença entre nossos amigos e nossos amores. Expectativas. Não tenho nenhuma expectativa em relação aos meus amigos. Não espero que gostem das bandas de que gosto, ou dos filmes que aprecio, ou que se emocionem comigo quando uma folha cai sobre as nossas mãos.

Não espero nem sequer que me liguem com regularidade, ou que mandem constantes sinais de fumaça, ou que me escutem por horas e horas. Que leiam esta crônica, que a comentem, que perguntem e me incentivem sobre meu próximo livro (sairá em agosto, coloquem no radar!).

Não espero nada dos meus amigos, honestamente. Partilhamos nossas vivências e convivência. Respeitamos a individualidade de cada um – ou melhor, a plenitude de cada um. Não há metades da laranja nem tampas de panela nem qualquer metáfora baseada na falta, na ausência, na insuficiência, para descrever uma amizade. Eventualmente nos juntamos, falamos do tempo, de literatura, de chã filosofia (esta crônica surgiu de um café com um amigo) e depois partimos, felizes.

Mas o amor é, ao contrário, uma interminável coleção de expectativas. Primeiro, espero que ela se apaixone. Depois, não bastando isso, que se apaixone como eu me apaixono – ou seja, da forma “certa”, com o coração e as pernas, com entrega suicida, cartas, ouvidos e mãos e olhos marejados.

Um amor arrogante, impossível.

É preciso amar o amor como se ama um amigo.

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