arte: loro verz

» Se uma vida se mede, ao fim e ao cabo, pela qualidade das escolhas que fazemos ao longo do caminho, só posso concluir uma coisa: a virtude está cada vez mais mais distante de nós.

Não dá para saber se um homem teve ou não uma existência feliz e plena antes que esta chegue ao fim, disse o filósofo. É no poente da vida que temos pesadas todas as nossas ações – e inações – e que se faz o terrível balanço de tudo. No leito de morte, de alguma maneira, sabemos: fui feliz. Ou não.

Aristóteles associava a felicidade à virtude. Em termos práticos, ser feliz significa fazer boas escolhas: ponderadas, razoáveis – ou racionais.

E como ficou difícil ser feliz hoje em dia.

O cotidiano moderno oferece (ou finge oferecer) uma tormenta incessante de escolhas. No supermercado, trinta marcas de ketchup gritam em suas embalagens vermelhas. Na padaria, dezesseis tipos de pão. Duzentos sabores de pizza. Seiscentos amigos; cem garotas bonitas para a gente namorar.

Seguimos por caminhos de tantas encruzilhadas, que: seguimos por encruzilhadas. Não há caminho. A cada segundo o universo impõe uma escolha. Qual carreira seguir? Sapateiro, como seu pai, o pai do seu pai, o pai do pai do seu pai? Jamais. Hoje sou comerciário, amanhã, fotógrafo, depois de amanhã, jornalista. E segunda-feira ninguém sabe o que será.

Confundimos a pluralidade de escolhas com liberdade essa palavra que ninguém explica, que ninguém não entenda. É mais livre o homem que pode escolher entre vinte marcas de achocolatado, certo?

Mesmo?

Talvez. Mas a oferta desmedida tem seu preço. Síndrome do excesso de escolhas. Síndrome do perpétuo arrependimento.

Cada sabor de pizza escolhido hoje são setenta sabores negligenciados. Impossível não pensar: escolhi o melhor? Entre todos aqueles? Seria mais feliz com outra pizza, certamente, porque esta em meu prato já não parece tão apetitosa quanto as fotos no cardápio, as escolhas dos vizinhos, a minha imaginação sem freios. A fatia nem esfria sobre a mesa e já estou frustrado.

Nos relacionamentos superficiais, também pizza. Se há cem anos as pessoas eram apresentadas a seis, nove pares atraentes e alcançáveis durante toda a vida, hoje veem isso diariamente. Diuturnamente. Como ter certeza de fazer a melhor escolha, de estar certo, quando o custo de oportunidade, ou seja, a quantidade de oportunidades perdidas por se agarrar à sua frágil convicção de ontem (ontem, agora adjetivo que designa tudo o que já é careta), cresce exponencialmente?

É preciso ouvir mais o coração, porque os cálculos da mente são traiçoeiros – insaciáveis. Depois, ter a convicção íntima de que fizemos a melhor escolha, e de que uma mesma escolha, repetida diariamente, é também outra, quem sabe cada vez melhor.

Uma mesma paixão, seguida com afinco, quem sabe resulta em novas paixões todos os dias pela mesma pessoa.

Então vem o amor, verdadeiro, e de repente nos vemos: sem escolhas. 

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