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É difícil reconhecer um erro, independentemente de sua gravidade ou extensão.

Mesmo os ínfimos, inocentes. Minha filha, quando menor, ainda que pega em flagrante, negava tudo. Não fui eu quem quebrou o vaso. Não fui eu quem manchou a parede. Não fui eu quem comeu o chocolate. Não, não e não.

Às vezes – ou geralmente – se tratava de algo realmente bobo, e eu não continha o riso enquanto dizia, serenamente: mas eu sei que foi você. Não adiantava. Ela negava os fatos até o ponto em que, sendo impossível prosseguir na estratégia, desabava em choro. Ainda assim, não admitia a falha.

[Nessas horas, a que o pai deveria se apegar? Ao coração, que ingenuamente confia, ou à razão, que cruamente vasculha indícios e tece explicações?]

 arte: loro verz

Crescemos, mas não mudamos. Atravesso a avenida Paulista enquanto me atravessam questões sem resposta. Afio as lâminas da prataria, verifico lâmpadas, sonho, rumino: é desejável viver sem ilusões?

Há ilusões e ilusões. A da criança amadurece com o corpo. No caminho, pode perder seu estatuto mágico e, vestida de ferro, converter-se em um dogma que atropela todos os fatos. Soterra a vida.

Convicções são entidades algo misteriosas, algo divinas. Sempre perigosas. Hoje, no latifúndio das redes sociais, as certezas laboriosamente construídas se multiplicam. São memes, frases feitas, correntes milagrosas e teorias conspiratórias.

Em tudo viceja o mais raso negacionismo – o mesmo da criança de mãos sujas de tinta que diz não saber como surgiram manchas na parede. Inventam-se longas histórias, articulam-se fantasias sofisticadas para obscurecer o óbvio. É difícil reconhecer um erro ou um engano, a qualquer idade.

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Um conto fantástico: A guerra das torres.

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Mesmo quando não há erro a admitir, é doloroso reconhecer que o mundo é menos fantástico do que gostaríamos.

O mundo bruto, sem cortes nem edição, dificilmente oferece matéria-prima para romances de espionagem, novelas melodramáticas, hinos inspiradores. Na maior parte do tempo um sem número de pessoas medíocres está levando, mediocremente, a vida. Não há glamour em acordar cedo, fazer café, trabalhar, voltar, ligar a TV, dormir.

Sem a arte a vida não é possível. Vivemos de romancear sucessos e fracassos. Insistimos em teses absurdas sobre compra e venda de torneios, de eleições, de provas. Isso deixa tudo mais interessante, pois. Que mal haverá? Às vezes o mundo sincero se resume a sorte e azar.

Lavar a louça, estender a roupa, não há nada de extraordinário nisso. É assim todos os dias para a maior parte das gentes, até que morram. Como suportar a brutalidade das coisas sem razão, que vêm e vão?

Faça da sua vida algo extraordinário. Na impossibilidade, invente-se.

Desde crianças sabemos que a vida é melhor com uma pitada de drama.

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