cabecaarte: loro verz 

Sempre ouvi – e li – sermões sobre a importância de valorizar as pequenas coisas da vida. Os pequenos momentos, as pequenas alegrias. Inspirações.

Detalhes, miudezas.

Quando o meu pai morreu, pensei em todos os clichês sobre a morte (e espantado concluí que eram terrivelmente verdadeiros) e enfim percebi que não era a negligência a esses pequenos momentos que me emurchecia. Não o descaso com as simplicidades do dia a dia.

Era rigorosamente o contrário.

Subitamente, no meio de uma travessia, durante um trauma, no limiar da vida, você refaz a medida de todas as coisas. O metro de todas as batalhas perdidas (confessemos: nenhuma batalha é vencida). E no metro de todas as coisas vê a pequenez dos tantos esforços a causas tão pequenas.

Quase toda a minha vida não admiti atrasos a compromissos, quaisquer que fossem os compromissos. Uma dessas pequenas coisas da vida, que me ensinaram a valorizar tanto quanto um abraço em uma pessoa querida. Alegrava-me com nascimentos, chegadas, conquistas; entristecia-me com mortes, violências, partidas. Invariavelmente, contudo, estava na hora exata no escritório, despachando as ordens do dia. Fui sozinho quando deveria ter ido junto, deixei de passar mais tempo com quem amava para não modificar minha agenda, submeti-me a empregos maçantes, dias maçantes, encontros maçantes com pessoas desinteressantes porque, de alguma maneira, era necessário fazê-lo.

Às vezes, por delicadeza. Às vezes cortesia.

Os pequenos momentos da vida são esses, e ocupam vida demais. Ser rígido no trabalho, pontual; cortês; exigir-se demais, impor-se um sarrafo inutilmente elevado para objetivos os mais rasteiros: um pouco mais de dinheiro, um pouco mais de atenção, um pouco mais de prestígio, um pouco mais de desejo.

Todas essas pequenas coisas.

Não é preciso valorizar as pequenas coisas da vida, tangíveis ou não, pois, em sua multidão de pequenezas, já nos soterram dia a dia.

Preciso é enxergar as coisas grandes, muito mais do que grandes, as coisas que ficarão.

 

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