arte: loro verz

 

»Fui à praia, enfim. Há quanto tempo não pisava na areia! Meu maior medo sempre foi naufragar nos tédios da rotina, saltando de carro em carro, porta em porta, edifício em edifício. E, aos fins de semana, shopping center. Fugir é preciso, de tempos em tempos. Fugir para retornar à vida – perdemos o caminho da vida, quase sempre, na pressa de chegar a algum lugar.

Concreto demais sob os pés e à volta e logo, sem perceber, a alma acinzenta, a alma cimenta. Fui atrás da areia para raspar de mim o asfalto. Fui atrás do mar para lavar a fuligem das ruas.

Fui à praia, enfim. Mas não era nem mar nem areia quem me chamavam, no fundo. Enquanto, ao cair da noite, as pessoas ainda brincavam nas ondas, admiravam o oceano, minha cabeça envergava com os olhos ao alto. Ao céu.

Era o céu, e não o mar, a peça que me faltava. Há quanto tempo eu não via um céu todo estrelado! Um céu atulhado de estrela, um céu grávido de luz e escuridão. Um céu que me devolvesse a perspectiva das coisas, que gritasse: é tudo pó, é tudo poeira.

Penso na minha filha, será que tem visto o céu? Quantas vezes na vida, será, que já viu assim, um mar de estrelas refletido no espelho do mar? Penso nos céus mais bonitos da minha vida: o Monte Roraima, onde tudo é silêncio e ancestralidade – um dos lugares mais antigos do planeta –, a minha Curitiba natal, que ao menos na minha infância ainda descortinava uma imensidão cintilante sobre a cabeça, e a beira-mar da Penha, no litoral de Santa Catarina, onde, adolescente, vagabundeava noite adentro.

O céu é a medida de todas as coisas, e sem ele tudo perde a referência. A gente começa a se achar muito importante, no meio da cidade, no centro de nossos mundinhos particulares. É muito importante a reunião e o trânsito, o vestuário e a etiqueta, a aprovação alheia e o progresso na carreira. Tudo muito sério num mundo desmedido.

O céu é a medida de todas as coisas; da minha irrelevância, da nossa brevidade. Quem não olha para o céu esquece que a vida é um sopro breve, um ajuntamento de poeira acidental num cantinho qualquer deste planeta. Transitório: à espera da próxima ventania. Esquece que é uma bobagem o que falam de nós, uma tolice a fama que buscamos, uma inutilidade, a glória.

O que importa é estar aqui, agora, entre estrelas. Olhar para o céu e perder a conta dos pontinhos de luz.

Fechar os olhos e ser também: uma circunstância daquela luz.«

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