arte: loro verz

»Voltei. Quero dizer, de viagem. O corpo entrou num Boeing 777 em Paris em um dia e aterrissou, são e salvo, em Guarulhos no dia seguinte. Ainda não superei o medo de voar – acho que é preciso cultivar saudável desconfiança ante uma máquina voadora de algumas toneladas. Assim, coloco os filmes em dia, mas o sono, não.

Engraçado: no visor do relógio, a viagem durou apenas umas seis horas. Claro que é uma ilusão, o voo levou umas 12 horas, mas o fuso horário fez parecer que ganhamos tempo (diferença de menos cinco horas, agora, entre cá e lá).  Saímos às 23h30 de lá, chegamos às 6h cá.

O corpo se adapta mais rápido quando o retorno é para casa. Em um dia, recheado de pendências em banco, filas no mercado, afazeres domésticos negligenciados, o corpo entende o recado: voltamos.

É nessas horas que chego a acreditar que corpo e mente são entidades separadas. O corpo aterrissa, mas a cabeça plana. Talvez nem tenha embarcado – esteja, ainda, procurando um banco de rua estrategicamente colocado diante da paisagem que deslumbra. Ficou em Paris, fiquei em Paris, na imaginação.

Cheguei. Sacudi a poeira. Todo retorno é a mesma coisa, a promessa de tentar “ser turista na própria casa”. Ou seja, andar mais à pé, andar mais devagar, andar apreciando a paisagem. Um “ver tudo como se fosse a primeira vez”, buscando o fascínio daquela árvore, a originalidade daquela fachada, a graça dos sons da cidade.

Todo retorno é também o mesmo tapa na cara: não dá. Para ir ao mercado a apenas quatro quadras, pego o carro. Arrumo uma boa desculpa: muita coisa faltando em casa. Arrumo mais outra: preciso ver se a bateria arriou, dar uma testada. Muito mais desculpa do que distância, é fato. Durante a viagem, caminhávamos alegremente de dez a vinte quilômetros por dia. Agora, cinco quadras parecem muito. O que acontece?

Tapa atrás de tapa. O Brasil fala de Dudu Camargo um dia, de Raul Gil em outro, enquanto a gasolina aumenta e todos posam de ícones éticos. Como é difícil se encantar com o mesmo de sempre, gozar a rotina, gozar verdadeiramente a rotina. Curtir o pãozinho da esquina, o sotaque do porteiro. Curtir, até, as notícias (impossível!).

É difícil, ainda, interessar-se realmente pelas histórias de gente estranha; admirá-las. Voltar para casa é voltar para o casamento da vida inteira, você e a sua cidade, o seu bairro, a sua casa. Trinta anos de intimidades abusadas, já se viram de todos os jeitos, já se suportaram em todas as horas, testemunharam de tudo. Nada surpreende muito.

A cidade nova, a amante de última hora, cheia de mistérios, por isso seduz. Pede calma (e atendemos). Como num início de flerte, pisca e desaparece, avança e recua. Pede que primeiro sintamos seus aromas, depois, a música. E, antes que possamos nos acostumar a suas estranhezas, desaparece. Fica apenas numa fotografia de fundo de gaveta, consultada muito esporadicamente, lembrando-nos que a vida poderia ser diferente – desde que você tenha suficientes euros, ou coragem, na bagagem.

O corpo já está aqui, pedindo água e alimento. Os compromissos sobre a mesa avolumam.

A cabeça, contudo, ainda perdida nas vielas do lado de lá do Atlântico, devaneia. Quer ser turista na própria cidade, pede para redescobrir encantos e mistérios neste casamento de trinta anos. Eu e São Paulo, São Paulo e eu… A pergunta, ó capital de todas as capitais, é: como?«

 

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